Oh meu amigo
você pensa
que me assusta
ao me tratar assim
como nada
estupida e desgastada
peça descartada
do maquinário social
Pois se engana
forjador de traumas
arremedo de torturador
eu já era nada
muito antes
do seu olhar enviesado
da sua tropeçada
pela minha vida
Nasci como nada
sem choro ou dor
sem pedir migalhas de atenção
à aqueles que me jogaram a terra
num corpo mal servido
e se diziam pais ou amigos
dispostos a minha redenção
Não tive berço
não tive coberta
mamadeira ou cueiro
eu me fiz inteira
sozinha e abandonada
sempre sem nada
sem aceitar
a violência oferecida
a loucura envolvida
os berros, socos
cusparadas
Por isso não o temo
pequeno homem
que se sonha um gigante
não me assusta
pois você não me controla
não me abala
nada tem que agrada
nem ao menos me incomoda
seus dentes não me alcançam
suas palavras somem
diante desse forte vento
que de mim exala
Talvez nem tenha percebido
nesse seu pedestal de lata
não é você
que vai brincar comigo
eu sou o terremoto
destruindo sua casa.
San, 31.07.2026