sexta-feira, 31 de julho de 2026

BORDERLINE

 


Oh meu amigo
você pensa 
que me assusta
ao me tratar assim 
como nada
estupida e desgastada
peça descartada 
do maquinário social


Pois se engana 
forjador de traumas
arremedo de torturador 
eu já era nada
muito antes
do seu olhar enviesado 
da sua tropeçada
pela minha vida


Nasci como nada
sem choro ou dor
sem pedir migalhas de atenção
à aqueles que me jogaram a terra
num corpo mal servido
e se diziam pais ou amigos
dispostos a minha redenção


Não tive berço
não tive coberta
mamadeira ou cueiro
eu me fiz inteira
sozinha e abandonada
sempre sem nada
sem aceitar 
a violência oferecida
a loucura envolvida
os berros, socos
cusparadas


Por isso não o temo
pequeno homem
que se sonha um gigante

não me assusta
pois você não me controla

não me abala 
nada tem que agrada

nem ao menos me incomoda
seus dentes não me alcançam

suas palavras somem
diante desse forte vento
que de mim exala


Talvez nem tenha percebido
nesse seu pedestal de lata
não é você 
que vai brincar comigo
eu sou o terremoto
destruindo sua casa.




San, 31.07.2026