quarta-feira, 26 de julho de 2017

Enfim



Finalmente aceito a felicidade
e sem alarde

Que seja hoje um dia fácil
sem nada a burilar, mudar, reconhecer

Finalmente aceito a felicidade
e sem contagem

Que seja aquilo que está agora aqui
sem precisar de nada mais 

Finalmente aceito a felicidade
e sem comparação

Terminado o ontem
permito o agora
sem pensar no amanhã

Finalmente aceito a felicidade
em corpo, mente, espirito
enfim assim para mim e fim



San, 26/07/2017

Cem milhões



Cem milhões soprarão
mas o homem permanece tranquilo
de olho no horizonte
dentro do seu caminho

Imperturbável
pois o vento é a miragem
do dogmatismo aceito
e recolhido 
no peito

Cem milhões soprarão
no entanto o homem
permanece atento e firme
ao seu caminho

Seu olhar transmite força
mas não agressividade
tranquila segurança
de não precisar
diminuir e nem somar

Cem milhões soprarão
mas será para ele como leve brisa
numa primavera florida
sem conflitos
sem feridas



San, 26/07/2017

domingo, 4 de junho de 2017

Abandono


As coisas antigas não servem mais
mesmo trazendo conforto e significado
estamos na época das coisas descartáveis
temporais, de beleza irreal, disfuncional

As pessoas antigas não servem mais
mesmo com suas histórias profundas
e tantas experiências de valor inestimável
estamos na época das pessoas plasticas
irreais, construídas, sempre jovens, artificiais

Por que insisto em buscar um caminho
se não tenho voz, palavra, significado útil?

E em meio ao desesperado criado 
e elaboradamente sustentado
eu continuo a cantar minha melodia
mesmo sem ninguém a me escutar.


San, 04/06/2017

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Enquanto espero



Você quer saber
por que fico aqui
parada sempre parada
nesse lugar

Alguns anos atrás
 eu peguei um atalho 
hoje reconheço
foi uma má escolha

E cada passo que dei
fui ficando cada vez 
mais distante
de mim mesma

Agora não tenho mais
 para onde voltar
e nem motivos
para continuar

Permaneço aqui
absorta na loucura

Zerando as lembranças
esquecendo as pessoas
liberando as dores

Você quer saber?



San, 02/06/2017


quarta-feira, 31 de maio de 2017

Me dê pouco



Não quero brincar
de louca paixão

Me dê pouco
pouco a pouco
quero o minimo 
de você

Não quero saber
todos seus sonhos

Me dê pouco
pouco a pouco
não quero agora
tudo de você

Não quero saber
todas conquistas

Me de pouco
pouco a pouco
me deixe chegar devagar
em você

Não quero brincar
de louca paixão

 Queimar tudo
queimar todos 
até a extinção

Me de pouco
pouco a pouco
me deixe viver



San, 31/05/2017


Pureza



Protegido ainda pela inocência
pura ilusão da beleza plena
sem a excrescência 
da humanidade
turvando
a mente

Gostaria de ter permanecido
naquele exato minuto
onde a plenitude
não havia ainda encontrado 
a feiura da solicitude

Onde ainda ouvimos animados
os pássaros cantarem,
onde procuramos flores no mato
brincamos com um simples papelão
onde ainda damos a mão sem medo

Observo isso muitas e muitas vezes
os momentos inocentes e livres
antes da queda no absurdo

Cultive-os eu imploro internamente
deixe-os se prolongar 

Gostaria de ter existido 
naquele exato minuto
onde o infinito
não havia ainda encontrado
as paixões mundanas



San, 31/05/2017



Blue Spirit



As vezes velhas almas 
vem para corpos jovens
almas sábias nascem 
entre ignorantes
doces e suaves espíritos
se encontram
entre os mais brutos

Como uma flor unica
no meio de uma campina abandonada
como uma brisa fresca
num verão sufocante

Elas não estão perdidas
elas escolheram estar ali
naquele exato momento
com essas mesmas pessoas

São presentes inesperados
da força curativa cósmica
são como remédios sutis
mas poderosos
que gota a gota nos tiram
da nossa bestialidade

E eu o seguro criança azul
eu o seguro entre meus braços
eu o vejo criança azul
eu o vejo correndo despreocupado
e não posso deixar de chorar de emoção
pelo seu grande desafio
pela sua grande compaixão
pelo seu grande otimismo



San, 31/05/2017

terça-feira, 30 de maio de 2017

Me deixe sair


Eu não posso mais
ser placido lago morto 
tão quieto absorto em não existir

eu te odeio, eu te odeio, eu te odeio
tranquila figura magica de fundo

Não posso mais ser uma rua
invadida noite e dia pela agonia

não posso mais segurar sua mão
enquanto mil vezes agoniza

Eu te odeio, eu te odeio, eu te odeio
insuportável vida

Quero correr para longe 
enquanto consigo correr
enquanto ainda lembro 
algo de mim mesma

Eu não posso mais pintar meu rosto
com esse sorriso despreocupado

eu te odeio, eu te odeio, eu te odeio
figura patética tão boazinha

me deixe sair eu escuto noite e noite

me deixe sair eu escuto a cada palavra dita

me deixe sair enquanto meu coração ainda bate

me deixe sair 



San, 30/05/2017 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Frêmito



O que você deve fazer
quando a unica forma
de se sentir vivo
é excepcionalmente 
agressiva
para todos.

O que deve fazer?

Tem um momento 
em que as palavras saem 
como jorros, 
tem um momento 
em que as mãos tremem 
descontroladas,
tem um momento 
em que seus olhos giram 
para trás
e você pode enxergar 
através das janelas
e você percebe 
que essa fenda imensa 
é você

Então apenas se sente ao meu lado
entre os espasmos-danças-esquecimento
lendo o jornal como no café da manhã
sem medo, angustia, desespero,
apenas lendo as noticias
de um mundo em constante frêmito.



San, 22/05/2017


sábado, 13 de maio de 2017

John and Mary


Mesmo que exista
mesmo que por um acaso exista
estaremos sempre perdidos
soltos nesse louco movimento 

Espalhado ao acaso somos
indefinidos seres impacientes
sempre correndo tanto

O que eu persigo?

Quero saber irmão

O que eu persigo?

Será algo tão desejado e odiado
como nossa própria transparência?

Danço entre as migalhas
sou a gralha
da minha própria 
consciência


San, 13/05/2017