sábado, 18 de abril de 2015

Abuso


Ontem senti tanto ódio de você 
que fiquei com enjoo, 
dor de cabeça, peso na nuca,
pressão alta, pontadas na coluna,
parecia que todo meu corpo 
iria colapsar.

Mas hoje percebi
que você se alimenta
do nosso ódio,
você precisa da energia
e atenção
do nosso desprezo.

Não vou lhe dar mais
meu tônus vital,
não vou sofrer
pelas suas maldades,
ficar remoendo 
a sua forma premeditada 
de violentar pessoas frágeis.

É muita atenção 
para alguém
tão insignificante
vazio e desprezível.

Um dia talvez sinta compaixão
não somente pelas suas vitimas
mas inclusive por você.

Esse será um dia 
surpreendente
e libertador
para nós dois.



San, 18/04/2014

Percepções 2


Não são as palavras estúpidas
que me incomodam agora
mas minha reação a elas.

Que pode variar
 da apatia de um morto-vivo
a brutal reação de um gêiser.

Assim sem sobreaviso.

Antecipação
é meu maior treino,
por isso minha mente vive
num círculo de eterno confronto.

Mas cansa esperar o pior.

Estou saturada
dos detalhes mórbidos,
estou impregnada
do feio e absurdo 
da humanidade.

Por isso o vicio em incenso,
toalha umedecida,
sabonete líquido.




San, 18/04/2015

Percepções 1


Quando todos pedaços de dor 
vão se fundindo
criam uma arma 
como uma navalha 
ou um machado
que lhe fere constante
de dentro para fora.

E um dia algo se rompe
para que todas as porcarias
sejam arremessadas para fora.

Tenho medo
de me libertar
e depois não conseguir 
encontrar os pedaços 
ainda não contaminados.

Creio que a guerra
é a catarse de um povo,
que todos os assassinatos
são a catarse da alma 
perdida numa vida inferior.

Dia a dia eu coloco 
outra camada de pele
sobre meu corpo, 
mais uma e mais uma
prevejo e me acautelo.

Tenho apenas a fé
de que a pressão
continue a prevalecer
sobre a temperatura
impedindo o rompimento
das moléculas.



San, 18/04/2015

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Testamento

Deixo apenas
uma caixa
de anotações,
poesias,
lembranças,
musicas,
lágrimas,
rabiscos
e perguntas.

Em volta
a ausência
de luxo,
desejo,
marca,
ostentação,
ego,
excesso.

Em todo canto
a suave presença
do vento,
incenso,
tranquilidade,
livros,
pedras,
conforto,
cheiro de mato.

Deixo 
pequenas coisas
que ocupam 
grandes espaços
emocionais,
e um silêncio
que transmite
um conhecimento
antigo.

Tudo isso é memória 
de quem não fez história, 
não teve uma vida extraordinária, 
relevante, exuberante, diferente,
que vale a pena ser lembrada
por toda gente,
alguém que não virou 
nome de rua ou estrada, 
feriado ou ponto facultativo.

E ao ver minhas coisas
talvez entenda meu juízo
ou falta,
ao olhar as páginas 
sinta a vida que se revela,
triste, doce, melancólica, cálida,
a reconhecendo ou desprezando,
entendendo ou ignorando,
aceitando ou rejeitando.



San, 13/04/2015

Carma


Bem igual a todo mundo
cada um tem seu rabinho, 
escamas e chifrinhos.

Quer paz e coerência?

Seja você mesmo 
o mestre dessa ciência.

Para levar tem que pagar
e cada coisa tem seu preço,
vamos então lá pro começo,
vivendo bem essa vida.


San, 13/04/2015

Come with me!


Eu já passei por muitos mundos
então conheço a fundo 
a tristeza e a solidão.

Chorei, fiquei cego, me escondi, cansei
despertei, dancei, escrevi, cantei, 
odiei, cuspi, solucei, gritei, 
quebrei coisas, esmurrei as paredes,
nasci novamente e estou aqui,
finalmente bem aqui.

Não preciso ir agora,
tudo tem sua hora certa 
e sua melhor forma,
sem usar da dor e desespero
para finalmente abrir a porta.


Come with me!



San, 13/04/2015

All things say not



Porque não é possível
viver mais um dia,
não é possível mais rir,
desejar, comer, trabalhar,
ir ao cinema, limpar a casa,
ir ao supermercado, ao dentista,
a festa de aniversário da amiga,
não é possível respirar,
ter força nas pernas 
para levantar.

Alguém foi transformado 
num mero produto,
descartado, moído
transformado em refugo,
destituído de humanidade,
família, dor, sentidos.

Mais um número numa lista,
um marco numa pedra,
outro nome apagado
pelas decisões dos grandes
gananciosos, inconsequentes, 
maldosos, incoerentes,
imperfeitos seres humanos.



San, 13/04/2015

I can not


A cada dia perco uma parte
daquilo que julgava correto,
coerente, definitivo, real
em mim.

Vão desaparecendo,
camadas e mais camadas,
como uma cebola 
sendo descascada
pela ação da solidão,
pela falta de sintonia
com qualquer coisa.

Às vezes dói,
às vezes me alivia.

Observo, analiso, questiono.

Quem era a pessoa 
que esteve aqui ontem,
e no mês passado, 
no ano retrasado,
a 10 anos atrás?

Do que era feita?

Tenho medo de me tocar
para saber minha atual textura,
apenas observo o que cai,
seco, áspero, descolorido.
pedaços da propaganda enganosa
que um dia fui eu.

De noite ao me deitar
de olhos bem fechados
me imagino sendo desenhada,
um novo rosto, 
um novo corpo,
uma nova postura.

Talvez todas as respostas
já estejam gravadas na minha alma,
e ela só precise de espaço
e tranquilidade,
para emergir lá do fundo.



San, 13/04/2015

Take easy



Mais calma!

Observe, pondere, 
não se afobe, não se irrite,
guarde a raiva, afaste o medo,
não leve para o lado pessoal,
não tenha pressa em julgar,
alias não julgue,
deixe a coisa como esta,
cada um sabe 
das suas necessidades
e costumes.

Mais darma!

Saia das leituras,
torne as palavras vivas
as leve para o dia a dia,
em conversas, silêncio, abraços,
ouvindo mais, falando menos,
com gentileza, respeito e carinho
em ação com a família,
marido, amigos, paquera
patrão, namorada, conhecidos
e desconhecidos.

E então perceberá
que tudo é mutável,
impermanente, imponderável,
realmente tudo é ilusão
até mesmo a iluminação.



San, 13/04/2015

domingo, 12 de abril de 2015

Preâmbulo


Eu não escolhi,
eu nasci assim,
dramática,
performática,
incerta, dúbia, sensível
nervosa, apaixonada, insegura
inteligente, infantil, inconsequente,
ansiosa, supersticiosa, delirante
encrenqueira, solitária, fóbica,
criativa, duvidosa, saliente,
doente, carente, incoerente
dor de cabeça para todos,
livre pensadora, poetisa.



San, 12/04/2015