sábado, 11 de abril de 2015

Amarelando


O céu e o inferno
são tão perto,
você nunca imagina.

Num minuto estou em um
no outro perdi tudo,
prazer, certeza, alegria, 
pique, vontade, clareza.

Pulando essa amarelinha
já na barriga da mãe
tenho câimbra espalhada
em cada fase da vida.

Deixei cair o presente!

Ou será que era o lixo? 

Muita coisa foi caindo
em cada momento vivido,
algumas tentei resgatar,
outras nem percebi,
fui em frente assim meio cega,
pulando numa só perna.

Chegando ao final
dessa minha intervenção,
que dizem ser "minha vida",
chegando ao final
só ai eu percebi
é tudo a mesma coisa
cheguei a onde sai.



San, 11/04/2015

Ciência


A ciência é girar sobre si mesmo.

Naquela ponta que todos tentam aparar
desde que você nasceu,
aquela mesma que lhe diferencia,
que talvez lhe incomode ou aos outros,
lhe faz meio fora de contexto
da família, sociedade, religião.

Porque a vida é um giro longo
e você vai ficar se batendo em tudo e todos,
se machucando, sofrendo,
procurando explicações ou sentido, 
até cair exausto e descrente de tudo.

Tem uma mão que gira isso, sabia?

Alguns querem lhe fazer crer que é deus.

Não é! Saiba que nunca foi!

Porque quando você olha 
bem para dentro de si mesmo,
como um explorador destemido,
a vida desacelera,
o giro se transforma em dança,
e você pode escolher para onde vai,
como vai, com quem vai,
pode escolher inclusive não ir.

Tem dias que eu danço
em outros me bato na parede.

Mas sei que não é deus!



San, 11/04/2015

Corrida longa


As vezes meu coração diz:
- Esta tudo certo! Não fuja!

Se eu ficar certamente escutarei 
o canto precioso que vem da minha alma
quando ela fala comigo.

Mas na maior parte das vezes eu fujo.

Cansa fugir,
cansa correr em dezenas de direções 
estranhas e sem sentido, 
mas eu fujo.

Depois me sinto tão perdida,
esvaziada, desorientada, negligente,
aborrecida comigo mesma,
que preciso me sentar sozinha
e lamber minhas feridas.

Geralmente fico doente,
doente de raiva de mim mesma,
doente por não estar disponível 
para o que gosto ou sou.

Doente por não me aceitar assim
essa coisa enigmática, 
conflitante e interessante,
essa coisa criativa, 
hiper sensível 
e sem pé nem cabeça.

Então novamente 
meu coração me chama 
de mansinho,
para não me assustar.

- Não fuja! Fique!
- Pode ser confortável ser assim!

E se eu olho 
diretamente
na direção da voz
vejo uma luz rodopiando.

Essa luz é feita
de milhares de partes de estrelas,
nuvens, flores, pássaros, folhas,
raios, gotas de chuva, 
que se juntam.

Essa luz contém
a minha própria voz
e todas as vozes do mundo.

Então eu fujo!



San, 11/04/2015

Coração tranquilo


Eu não tenho asas
mas viajo a todo mundo
através das preces doces
do meu coração tranquilo.

Ele fala muitas línguas
e conhece todos seres,
tem uma voz macia
o meu coração tranquilo.

Todos são importantes
tudo é relativo,
todos são igualmente
companheiros de abrigo.

Não existe medo ou limite
e seus feitos não tem defeito
surgem no pleno senso
do meu coração tranquilo.


San, 11/04/2015

PREMA 2


Estou nessa curva longa
a mais de 29 anos,
esperando encontrar
seu olhos risonhos,
desejando lhe tocar
mesmo que por poucos 
segundos.

Não aceito 
que outro alguém entenda,
essa dor vive represada,
tenho medo de abrir 
as comportas,
e ser levada para algum 
reino tão longe
que não consiga 
mais voltar.

Com mãos firmes 
eu seguro a direção
e vou virando mais um pouco
e seguindo em frente,
talvez tenha ali algo seu,
e talvez possamos criar
algo nosso,
nesse espaço diminuto
nesse espaço minuto,
nesse espaço nulo
que virou 
meu coração.

Como deixar de amar
alguém tão brilhante?

Como deixar de amar
alguém tão importante?

Como deixar de amar
alguém sem pecados,
sem passado,
sem desejos
não realizados?

Agora essa curva é minha vida,
e os meus braços sustentam
essa viagem longa,
as vezes meus olhos se cansam,
preciso lhe contar
as vezes eu durmo
mas você nunca me visita,
nunca me procura,
nunca me acusa,
nunca me pede nada,
nunca me diz
suas coordenadas.



San, 11/04/2015

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Pastoreando


Eles existem em todo lugar,
deuses, semi deuses, 
fabulosas reencarnações,
de coração puro voltaram
para resolver
os problemas da humanidade.

Que bons mentirosos eles são!

Porque nós 
seres humanos
somos incompletos,
néscios, aparvalhados,
cegos, desorientados,
precisamos de muita orientação.

Que habilidosos mentirosos eles são!

Dos seus púlpitos dourados
ecoam palavras como trovões
sacudindo os alicerces
da pobreza mental,
criando necessidade
e muita emoção.

Que magníficos mentirosos eles são!

A vida é um drama,
eles oferecem a felicidade,
a vida é escura
eles trazem a iluminação,
a vida é mistério
eles tem a solução.

Que espertos mentirosos eles são!

E a ciência da vida
é ter uma boa lábia,
muito teatro e purpurina,
 coisas mágicas e vistosas,
e uma conta bancaria
de preferencia 
nas ilhas Cayman.

Que ricos mentirosos eles são!



San, 08/04/2015

35 milhões


Faltam 35 milhões de mulheres na Índia,
elas foram descartadas 
como formas defeituosas,
coisas inadequadas,
produtos vencidos,
seres sem alma.

Porque o feminino é impuro,
raso, limitado, inculto
feio, quebrado.

Mulher não vale nada,
mulher custa muito,
mulher não produz 
o que custa,
mulher não vale
o que produz.

35 milhões de cantos
foram calados,
35 milhões de sorrisos
foram apagados,
35 milhões de sonhos
se tornaram pesadelo.

Persistente maldade,
ignorância seletiva.



San, 08/04/2015

Despertar




Pode existir no mesmo lugar 
a destruição e o despertar,
pode acontecer no mesmo momento
o enlevo e o tormento,
porque a vida é indefinida
e a morte é a unica saída.

Essa poesia é apenas um aviso
que todos já tem
o que é preciso.


San, 08/04/2015

Livre


Uma tarde tranquila
é assim sem companhia,
sem precisar me preocupar
se estou me fazendo entender,
sem esforço para agradar,
sem sorrisos,
explicações,
movimento.

Uma tarde tranquila
tem um silêncio de palavras,
mas muitos ruídos,
como o canto de pássaros,
miado de gatos,
latido de cachorro,
o tapa do vento 
fazendo a janela tremer.

Uma tarde tranquila
ignora o calendário,
lista de coisas a fazer,
obrigações para me obrigar
a levantar da cama,
horário definido
para as coisas definitivas.

Uma tarde tranquila
é assim uma tarde sem ocupação,
uma tarde sem grandes planos
ou ideias que salvarão o mundo,
uma tarde sem promessas,
sem sonhos,
despojada e nua.



San, 08/04/2015

Rascunho



Percebo agora, 
toda minha vida foi rascunho,
vivi nas bordas, letras tortas 
setas sem sentido.


Como poderia ir mais fundo
se sou apenas uma incompleta forma
um passatempo sem intenção,
rabiscos sem coração.


Alguém me dê acabamento,
alguém me dê motivo,
alguém me dê respostas
ou me torne mais do que amostra.


Viver tem sido em vão,
sou apenas um trabalho indefinido
traçado pelas suas inseguras mãos.





San, 08/04/2015