domingo, 22 de março de 2015

Humus



Quem sou?
E por que?

Quem fui?
O que fiz?

Eu tenho tantas perguntas
e nenhuma paciência
para ouvir.

Eu tenho tantas idéias
e em nenhum momento
as vivi.

Eu tenho um buraco onde jogo
as coisas que não quero pensar
as coisas que não quero olhar
as coisas que não posso entender.

Quem sou eu?
E por que?

Quem eu fui?
E para que?

Coleciono enganos,
coleciono verbetes,
coleciono absurdos.

Sou eu quem?
E para que?

Fui o que?
E por que?

E nesse buraco 
existencial 
das porcarias
as coisas fermentam
e brotam um dia.



San, 22/03/2015

sábado, 21 de março de 2015

Não você, não eu


É cansativo fingir 
todos os dias
que eu lhe amo,
é exasperante.

Mas não falamos 
sobre isso 
abertamente,
eu me desculpo
 dizendo que
 estou apenas cansado,
e você aceita
porque aceitar
é menos doloroso.

Antes batia a porta 
com força,
como se quisesse 
que a casa toda
desaparece-se
junto com a minha
insatisfação.

Agora eu fecho a porta
delicadamente,
porque meu braço cansou,
meu coração cansou,
minha mente cansou,
de procurar uma solução.

Apenas dividimos
esse espaço de absurdo,
hora o pintando 
com cores esfumaçadas
em outras brilhantes,
mas sempre esvanecentes.

É assim nossa NÃO VIDA,
cheia de NÃO VOCÊ,
NÃO EU,
NÃO POSSO,
NÃO CONSIGO.



San, 21/03/2015

Deveria estar aqui



Todos os dias eu forço
um sorriso gostoso
que deveria ser assim,
que deveria estar aqui.

Juro que treino bastante,
parado em frente ao espelho,
e tento me inspirar 
com histórias de valor,
tento me animar
com filmes de amor.

Me eduquei a lembrar
das coisas maravilhosas
vividas por nós dois,
mas a menor desatenção
minha mente volta 
a solidão.

Reflito que nem todos 
permanecem seduzidos 
pelos prazeres
desse mundo 
impermanente.

Mas queria tanto
que não existisse 
esse abismo 
entre nós.

Todos os dias acordo
e treino esse sorriso
quero muito lhe agradar.
e reinventar esse amor.




San, 19/03/2015

Perdido



De manhã
você abre as cortinas
e suavemente
me convida 
a estar presente.

Me perdi tão longe
e a tanto tempo
que já não me espanto
com as coisas 
estupidas do mundo.

Você me oferece
aconchego,
um sorriso,
um porto seguro,
mas eu ainda tateio 
no escuro,
assombrado
pelos meus medos.

Me perdi tão longe
e a tanto tempo
que já não sinto prazer
com as coisas tolas do mundo.

Ao entardecer
você arruma meu quarto
espalha antigos retratos
tentando me fazer inteiro.

Me perdi tão longe
e a tanto tempo
que já não lamento
as coisas que eu não encontro.



San, 20/03/2015

Mensagem


Deixei uma mensagem
nessa parede em branco
que possa entrar no seu mundo
falando meu idioma.

Não sei se é coincidência
ou apenas carência
mas quando canto sozinha
eu sinto sua presença.

Deixei uma mensagem
nessa parede em branco
que possa nos acordar
de todos os antigos sonhos.

Não sei se é extremismo
ou apenas certeza
mas quando olho de lado
eu vejo suas pegadas.

Deixei uma mensagem
nessa parede em branco
que possa conter seu pranto
e curar minha loucura.



San, 21/03/2015

segunda-feira, 16 de março de 2015

Tantos



Quando era criança,
isso que me ensinaram:
- havia uma única porta
de entrada e saída,
uma unica forma
de fazer todas as coisas.

Conforme fui crescendo
as instruções ficaram confusas,
os caminhos emaranhados,
nebulosos, complicados.

Tantas placas,
tantas ordens,
tantos desejos obscuros,
tantos rostos soturnos,
tantas coisas que desconheço.

Finalmente entendi,
 era tudo mentira,
pais, tios, avós,
professores, pastores, amigos,
eles gritavam no escuro
seus sonhos sem sentido.

Então acordei adulta
realmente perdida
sem saber nada da vida
sem conhecer a mim mesma.

Tantos nomes,
tantas ruas,
tantos rostos,
tantas coisas para pensar,
tantas coisas para enfrentar,
tantas coisas para matar,
e isso é só um começo.




San, 09/11/2004

Jogos de amar 1


O mundo é um grande quadrado
como nos jogos de azar
mais um instante
sem respirar
que eu vou rolar
esse dados.


San, 01/02/1984

domingo, 15 de março de 2015

Por um triz


Quase ninguém entende
aquilo que você não diz,
e o amor esta por um triz
na dança do seu silêncio.

Um ritmo tão comum
que quase desapercebido,
mania de gente magoada
que prefere viver fugindo.

É difícil ficar presente
e conseguir mudar o ciclo
dos seus desentendimentos,
da sua confusão extrema.

Assim se passam os dias
em luta, em luto, em nervo,
sempre a beira do abismo,
em sádico questionamento.



19/02/2015

Anatomia da loucura


Me reparto
como um parto,
quebrando as costelas
e saindo pela boca
um grito congelado
parado na eternidade.

Sim,
sinto saudades do tempo 
em que tudo tinha nome,
valor, direção, função, 
especificidade,
até mesmo eu.

Agora sou névoa,
difusa,
a mente bipartida,
conspurcada,
o medo pegajoso.

Sou doença
que se sente
mas não se vê,
que é de dentro
causada pelo 
que é de fora,
um alien que cresce
entre camadas.



San, 02/02/2015

Todos os tipos de amor


Conheço o amor que somatiza,
o amor que desagrega,
o amor que anula,
o amor que ofende,
o amor que cobra,
o amor que empareda.

E todo esse amor
é como hera que se enrosca
molenga e voluptuosa,
até tomar o folego do outro,
até secar seu hospedeiro.

O amor que lhe dá sede,
e costura sua boca,
lhe dá idéias,
e quebra seus dedos,
o amor que prega 
uma cadeira no chão
para você se tornar 
parte da paisagem.

Conheço muitos tipos de amor,
que são do mesmo,
mudam os rostos,
mantém o endereço.


San, 01/03/2015