domingo, 15 de março de 2015

Canção de um coração antigo 2


Meu coração gosta de chuva,
outono, ventania, trovão.

Gosta de antigas casas de pedra
com fogueira no chão.

Casas com janelas 
pequenas 
como olhos
e portas grandes 
como a esperança.

Meu coração gosta 
de camas altas de madeira,
cobertores de retalhos,
dos latidos dos cães lá fora.

Meu coração gosta
da musica suave
que se espalha
lá por dentro.


San, 17/02/2015

Diáspora


Tenho paixão 
por lugares perdidos
onde não encontro nada
além da natureza.

Ao mesmo tempo 
me sinto sufocada
por tanto eu, eu, eu,
e preciso fugir 
dessa presença.

Então procuro movimento,
musica, vozes,
cheiros, cores, hálitos,
hábitos, discordância,
mas ainda assim 
me sinto vazia.

Quando estou sozinha
me falta o mundo,
quando estou no mundo
falta a mim mesma.



San, 15/03/2015

Canção de um coração antigo 1


Tem um buraco
em meu coração...
Tão bom! Tão bom!

Ele permite 
que toda coisa
inadequada 
se vá,
e que toda coisa bela
passe cantando.

Um buraco é uma porta
para possibilidades
luminosas.


San, 08/12/2014

Entre viagens


Eu lastimo
não ter feito a pergunta certa,
no momento certo, na forma certa,
com a correta intenção.

Eu lastimo ter pressa
em me afastar, entender, 
rejeitar ou aceitar.

Eu lastimo
ter deixado tanto lixo 
pelo meu caminho,
tanta mala abandonada.

Eu lastimo ter andado
tantas milhas emocionais
com os sapatos dos outros 
sapatos que machucavam os pés,
inadequados para as tarefas
da minha vida.

Eu lastimo
ter acordado tarde,
ter perdido minha própria festa,
ter esquecido minhas necessidades,
repudiado minha essência.

Eu lastimo
ter ficado muda de medo
e ter falado tanto
quando não precisava.

Eu lastimo
ser tão desorientada.



San, 18/02/2015

Descobertas


Tudo esta parado,
tudo esta mudando,
é um momento estático
num planeta 
que esta girando.

Doem as costas,
nascem asas,
meus pés crescem,
minhas mãos alongam,
meus olhos se abrem,
meu coração se aquieta.

Tudo está parado,
tudo está mudando,
estou renascendo
num mundo 
que está acabando.



San, 13/03/2015

Poemas Zen - Cerejeira


Dezenas de pés vem e vão.

Esse caminho é bom?

Enquanto isso medito
no agora
não no infinito.

Pego fios de conversas
que são como lamentos.

Qual a consistência do vento?

E essa minha vida
é como um antigo koan,
repito sem entender,
esperando florescer.


San, 18/02/2015

quinta-feira, 12 de março de 2015

Durante a noite



Eu fui crescendo
enquanto você dormia,
e nunca lhe encontrei
nessas brechas da vida,
sempre tão ocupado
você quase não existia.

Pai não quero dinheiro,
sei que isso é aquilo
que nos separa,
e que me compra sapatos
para ir a lugares sozinha,
ir a festas que nunca lhe encontro,
para ter esse conforto
que me confronta sua ausência,
persistente.

Pai, estou apenas carente,
e não é de presente,
como posso crescer sem realmente 
enxergar você,
conhecer você,
superar você,
entender você,
perdoar você,
cantar para você
todas as musicas que fiz 
no meu quarto 
em todas as noites
em tantas noites
que nem sei,
é tanto tempo
que já contei
os espaços em brancos,
essas lacunas
do seu amor.

Quero abrir uma fenda no tempo
em que possa passar meus braços
e te alcançar num abraço
onde estiver,
mesmo sem saber,
onde estiver.
mesmo sem sentir,
onde estiver,
apenas porque precisamos.


San, 12/03/2015

segunda-feira, 9 de março de 2015

Dormindo




É preciso muita luz, cor, 
som, cheiro, forma,
muita vibração,
muito estimulo
para que não possamos pensar,
para que não possamos sentir,
para que não possamos perceber,
para que não possamos ver,
onde realmente estamos,
o que acontece conosco,
quem somos,
do que é feito nossa vida.

E isso é um procedimento,
um plano estruturado
para que você possa
continuar a dormir
mesmo de olhos abertos.

A festa crua e nua continua,
dançar até a exaustão,
beber até não pensar, 
comer até estourar,
fornicar até doer,
trabalhar muito
e consumir tudo,
até mesmo você,
depois apenar cansar,
romper,
esvaziar,
esquecer
e morrer.


San, 08/03/2015



Despertando


Nenhum lugar para ir
a não ser dentro de mim mesma.

Pois todas as pessoas do mundo
são a mesma pessoa,
com igual desejo.

E todos lugares que ainda não fui
são exatamente iguais,
com uma unica possibilidade.

Nada além da mesma coisa
em todo lugar, de todas as formas,
em todos os rostos, 
em todas as situações.

Nenhum lugar para ir
a não ser dentro de mim mesma.



San, 09/03/2015

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Silêncio


Flutuo para longe
dessa antiga correnteza

Eu já vivi demais
os medos abissais

Ás vezes me sinto morta
em outros desperto viva

Eu já senti demais
as neuras abissais

Não tenho certezas e duvidas
não faço questionamentos

Eu já comi demais
os conceitos abissais

Talvez já seja tarde
e não haja qualquer saída

Eu já morei demais
nos escuros abissais



San, 01/02/2015