terça-feira, 14 de outubro de 2014

Milhões de estrelas


Já vi milhares de luas 
e milhões de estrelas
já dormi de vestido de noiva, 
com sapatos, laquê e a boca vermelha,
já dormi nua, descalça, descabelada
beijando alguém,
já dormi com medo,
com expectativa, com desejo, aborrecida,
já dormi pesado, leve, breve segundos,
já dormi no chão, na cama, no tapete,
na cadeira, na rede, na esteira, 
já dormi no carro, ônibus, avião, barco,
dormi uma vida e meia,
já dormi milhares de vezes
mas nunca acordei.


San, 14/10/2014

Indecente



Acorda poesia
escova os dentes
respingue o sol
no meu corpo
atice na mente
a vontade de soletrar
PROCURAR
e então me venha
com histórias curtas
absurdas
bisonhas
me faça companhia
até a tarde
e sem fazer alarde
saia voando
bela, desnuda, indecente


San, 14/10/2014

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Il tempo non è denaro, il tempo è poesia


Desapegue-se criatura
pois a poesia já está madura
e preparada para o seu voo.

Deixe que tome seu curso,
direção impensada,
sem o controle 
da sua conformidade.

Não importa se alcançara altura
ou cairá no quintal do vizinho,
se será vista por muitos
ou apenas um único ser vivente,
se chegará inteira
ou cortada em partes,
se pousará de manhã 
ou mais tarde.

Desapegue-se criatura
pois a poesia está na hora,
está madura.


San, 13/10/2014

Prema




Você virou a esquina
bem antes de mim,
teria mesmo que ser assim
porque você sempre foi
apaixonada pela aventura.

Nunca teve medo
de habitar outra casa, 
de tomar outro rumo,
de largar esse corpo,
virar luz 
e me fazer chorar.

E eu fiquei 
nessa larga avenida
olhando as meninas
que passam 
com suas bicicletas 
cor de rosa,
lhe amando
a distância. 


Perdi meu telhado
ficaram as estrelas
cantando de longe
a sua lembrança.

Seu brilho 
ainda me alcança,
seu calor 
ainda me alcança,
sua força 
ainda me alcança,
em bilhões de combinações.


San, 12/10/2013

Mother Blues


Mãe
cansei da nossa guerra 
de palavras
incongruentes
afiadas, magoadas,
precipitadas
por motivos banais,
a qualquer hora do dia,
em todos lugares.

Mãe,
tento ficado surda
para não lhe ver,
tento ficado cega
para não brigar com você,
mas mesmo assim 
você se irrita
com meu silencio,
minha simples presença
é como uma facada
no seu pensamento.

Preciso urgente 
de uma longa viagem
para experimentar 
outra realidade,
sem tantas cobranças
e gente de autoridade
tentando me provar
minha absoluta falta 
de capacidade.

Mal consigo respirar,
pensar, desejar, criar,
estou totalmente bloqueada,
dar risada nem pensar,
minha alma coitada
já esta intoxicada.


San, 12/10/2014

domingo, 12 de outubro de 2014

As coisas vivas do mundo


Me despedaço 
parte por parte
me unindo as pessoas 
que vou conhecendo.

Observo e absorvo
palavras, cheiros, musicas
 detalhes mágicos,
me tornando também
um personagem.

Sim, eu lhe vejo
e me vejo
ponto a ponto
através de seus olhos
sonâmbulos.

Sim, eu lhe sinto
e me sinto através de você,
mergulhando na ficção
das suas memórias.

Por isso me isolo
eu sou a cola
que se impregna
e se empresta
as coisas vivas
do mundo.


San, 01/01/2014

Quase deuses


Restaram apenas lembranças
de dias ensolarados
tão belos, longos,
tão plenos de contentamento.

Nunca mais tive dias tão perfeitos,
nunca mais tive abraços tão amigos,
tão carregados de alegria,
e despojados de cobranças.

Quando o mundo virou 
de cabeça para baixo
pouco a pouco 
um a um
fomos caindo.

Agora vejo que perdi
coisas tão preciosas
pedaços de mim mesma
que nem mesmo reconheci.

Restaram apenas lembranças
de todos dias mágicos
que nós quatro criamos.


San, 17/10/2014

Maybe


Se não fosse tão tarde.
se não tivesse tanta dor,
o vento fosse ameno
e a terra fértil.

Poderia agora me deitar
no tapete felpudo 
da nossa sala de estar.

E ler todas poesias
de amor e encantamento
que eu nunca fiz.

Talvez

Se não tivesse anoitecido
se não tivesse tanto medo.
se não tivesse morrido.

San, 17/10/2014

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Pura Poesia Impura



Procuro uma palavra mágica
que não deforme a forma
dos meus sentimentos
e que saia sem dor 
do campo sonhador
das ilusões dormentes

Mas quando caem sobre o papel
geradas pela mão claudicante
de um cruel ser pensante 
as palavras se tornam obstáculos 
pontiagudos, escuros, mal cheirosos.

Se pudesse escrever
o que desejo dizer
sem a força dilacerante
do julgamento alheio
muitas palavras surgiriam,
 dançariam, gritariam urras
se abraçariam tontas de alegria,
comemorando 
a liberdade de sentir
e criar essa poesia impura.


San, 16/09/2014

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Desordenada


Com ou sem alarde a vida se acaba.

E o que era sonho, risada, desejo,
é superado pelo tempo.

A dor do momento se esvai
se transformando 
numa minuscula marca
 no grande livro do esquecimento.

A vida é como uma praga
que se espalha desordenada
e um dia é ceifada 
pelo bom andamento do conjunto.

Com ou sem alarde a vida se acaba.


San, 13/09/2014