segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Mapa Mundi


Em algum momento perdi
a necessidade de conquistar
patamares e pessoas,
colocações e prêmios,
certezas e adulação.

De repente percebi 
que apenas respirar me fazia bem,
nada além de estar viva,
sem precisar de autorização 
e apoio externo.

Simplesmente acordei e vi 
que todas as coisas 
estavam no mesmo nível,
não mais classificava,
julgava, conferia, ponderava, reprimia,
negava, descredenciava, aferia.

Tudo se tornou uma só vida,
sem análise,
sem sofrimento,
sem expectativas,
sem medidas,
sempre esteve ali,
sempre estaria ali.

Então olhei para meu corpo
e finalmente enxerguei as marcações
pontos, números, meridianos, 
as linhas entre o mar e a terra,
setas de movimento 
da vida acontecendo em mim.

Coloquei a mão em meu coração
e encontrei a bussola
pulsando e vibrando
naquele espaço tranquilo,
naquele espaço de suavidade,
naquele novo mundo que emergia.



San, 16/03/2014

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Terapia

Em meu corpo
todos os dias
uma ópera
mambembe
se apresenta
assistida
por duvidas,
fantasmas,
falsas memórias,
ilusões perdidas.

Ao entardecer,
se ficar extremamente
quieta,
posso ouvir
os aplausos
e saudações
ao fim do espetáculo,
são intensos e curtos
como um espirro.

Ainda não conheço o autor,
o criador, 
o fauno exuberante louco sedutor,
que vageia semi escondido
pelos meus anos perdidos
com sua pesada carroça de sintomas
vendendo seu teatro do absurdo.

Mas vejo os resíduos de sua passagem,
os despojos, cacos, o lixo, 
as coisas quebradas que não se consertam mais,
e dai tento descobrir sua provável rota,
intenção, desejos, necessidades,
marco de partida,
ponto de chegada.


San, 02/02/2014

Antes que o dia acabe


Me espanta que façamos tão calorosamente
coisas que irão nos machucar
destruir, magoar, assombrar, regredir,
até mesmo anular todos os bons frutos da vida.

Me espanta como nos envolvemos
tão apaixonadamente
em coisas tão negativas,
tormentosas, sem sentido, perniciosas, imbecis.

Que a estupidez tenha um lugar de destaque
em nossos corações,
um lugar onde é ovacionada, justificada, idolatrada, ambicionada,
arquitetada, ansiada, propagada, vendida e comprada.

Depois caídos no fundo do poço da ignorância,
chorosos e arrasados,
tateando na hecatombe 
alimentada por nossas escolhas,
soframos de forma tão abjeta
a procura de outra ideologia venenosa e cega.


San, 28/05/1945

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Abaixo do céu

Não pensei
caçar estrelas
mas é só
o que faço.

Me tornei
fragmento
do desejo
coletivo,

A criança
que não 
pode crescer
presa
no firme laço
que segura
seus tolos sonhos.


San, 01/01/2014

Manifesto



Somos milhões,
massa podre amorfa mofada abandonada vilipendiada,
a loucura humana capturada num instante,
tão presente absurdo distante irreal banal miserável.

Somos milhões
caminhando sem destino tino sensatez segurança capacidade,
a sagacidade humana que nos separou de outros símios
destruição sem sentido.

E a mão que aperta o gatilho
é a mesma que acaricia o filho,
e o carrasco sanguinário 
é o mesmo amante delicado.

Somos milhões
inaptos dirigindo o carro alegórico da transformação evolução pureza ascensão,
insensíveis aos gritos daqueles que amassamos
com nossas obtusas abruptas massacrantes delirantes ideologias.

E assim tombam civilizações,
pulverizadas pela ganancia mascarada de mudança.

Somos milhões!!!



San, 09/02/2014

Jogos de amar 4


Toda espera me parece uma janela,
meio aberta, meio fechada,
numa sala vazia e abandonada.

Já esperei muitas coisas de mim mesma,

coisas que poderiam me permitir
chegar mais perto de você.

E eu estava enganada.


Não sou uma construtora de pontes,

sou uma mão que treme
tentando fazer suturas emocionais.

Então coloquei minhas esperanças no mundo,

e fui caminhando, procurando,
até que as pesadas expectativas 
machucassem meus ombros.

A realidade é outra,

mais sanguínea,
bruta, imediatista.

E enquanto crescia,

me esvaziava,
quanto mais me expandia,
mais ausência encontrava.

Você não vira,

eu não irei,
finalmente entendi.

Toda espera me parece uma janela.



San, 03/02/2014

Tino


Sempre fui confusa,
difusa,
dona de idéias inconsistentes,
e emoções inconvenientes,
abraçando causas míticas,
e ideais fantasmas,
assoberbada pela fantasia,
atabalhoada com a realidade crua e fria.

Minto - não é incoerência, é magia!

Sou atropelada
pela verdade-tanque-de-guerra-cotidiano,
perco algumas partes ditas essenciais,
novamente conto os danos,
e logo estou, 
cega, surda, muda, 
apaixonadamente repetitiva,
no meio da estrada do engano.


San, 05/02/2014

A vida exumada



Estou tão cansada de viver nos preâmbulos,
chegar ao final e encontrar exatamente o início.

Estou cansada da tortura da incorreção,
da certeza da indefinição.

Cansada de ser sacudida pela ansiedade,
puxada pela incoerência.

E ai alguém me diz: 
- Desça dessa corda bamba!
- Ponha seus pés no chão!

Como farei isso cidadão?

Eu não sou o corpo que se estende acima.

Eu sou a corda,
eu sou a corda,
eu sou a corda,
eu sou a corda,
eu sou a corda,
eu sou a corda.

O mundo é o vento,
suas crenças e palavras e atitudes
são pés que me atravessam,
sacodem,
estimulam,
machucam,
deixam marcas.

Eu sou a corda,
eu sou a corda,
eu sou a corda,
eu sou a corda,
eu sou a corda,
eu sou a corda.

Me largue aquele que me segura,
desate o nó que sustenta minha loucura.


San, 09/01/2014




sábado, 8 de fevereiro de 2014

Atrás de todas as portas


O que irei fazer com você Verdade?

Onde coloco toda a vida,
toda a vida detalhada 
e esmiuçada em invenções,
e malabarismos mentais?

Toda vida vivida 
com as mãos para trás
torcendo os dedos,
apertando o punho,
segurando a faca,
atada em mim mesma.

Mentir foi viver
mais do que fantasia,
opção,
espaço,
ambientação,
poder,
inserção,
escolha,
oportunidade.

O que faço agora com você Verdade?

Está carregada de sujeira,
raiva, medo, despreparo,
violência,
 dia após dia.

Não te conheço,
não me conheço.

Será preciso rasgar meu corpo
mais uma vez?

Abri-lo de ponta a ponta,
dar fuga ao refugo,
escoar toda maldição
o veneno do não dito,
sentido,
esperado,
temido?


Onde lhe colocarei verdade?


San, 01/02/14


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A curta história de nós dois


Perdi o guarda chuva 
que você esqueceu em casa.

O deixei no banco
encostado num canto
para poder passar
pela porta de segurança.

Voltei um tempo depois
mas ele não me esperou,
foi embora em outra companhia.

A vida é tão absurda,
e rápida 
que parece nunca
estar mudando.

São milhares de cenas
que não vi, 
não percebi, não pressenti,
não me preparei,
não me protegi.

Depois de cinco quarteirões
começou a chover
mas eu só lembrei do guarda chuva em casa,
exatamente porque 
ele não estava mais lá.

Então naquele momento
finalmente me dei conta 
que também perdi você
irrevogavelmente.

Desde criança eu tenho

esse pressentimento da dor
a dor que seria minha vida.

Muitas coisas tem ido embora,
perdidas nos despovoados
encantados, 
nos caminho tortos 
da minha vida.


San, 10/01/2014