sexta-feira, 8 de março de 2013

Passagem


Saberei me soltar quando for a hora?
Tranquila, feliz, satisfeita, despreocupada?
Ou ainda ficará em mim um prego do cotidiano,
a me segurar, puxar, 
impedir voos muito mais longos?
Num dia eu vi seu rosto,
não era feio
como o medo de todos
faz crer,
era tão belo,
tão suave, paciente, risonho,
passando pela minha cama.
Meu coração não ficou em pânico,
meu corpo não ficou hirto,
senti um calor ameno,
uma sensação confortável,
parecia um abraço.
Desde então eu sei
que em algum lugar
eu sou muito amada,
muito mais
do que poderia ser aqui,
nesse cubiculo material,
nesse universo de ilusão.
Saberei me entregar quando for a hora?
San, 08/03/13

Cala-te palhaço!



Se você me der
as mentiras mais belas
ficarei muito feliz,
no momento só tenho
as mentiras feias,
as mentiras asperas,
grudentas e mal cheirosas.
 
Por favor me dê mentiras coloridas,
suaves, redondas, confortáveis,
me dê mentiras que me façam
acordar pela manhã
satisfeita com a minha ilusão.
 
Eu já quis viver
pelas verdades
mas não encontrei
nenhuma diferença
entre elas e as mentiras.
 
As verdades
também podem ser horríveis,
nauseabundas, gosmentas, cortantes,
assim como belissimas
e doces e edificantes.
 
Mas as verdades 
são um produto acabado
não é possivel torna-las
novas receitas,
não se aplica
a qualquer pessoa,
a qualquer assunto,
em qualquer momento.
 
Já as mentiras
tem de todas os sabores,
doces, acidos, suaves,
azedos, salgados, alcoolicos,
se permitem ser misturadas
a praticamente
qualquer coisa,
virando outra
com muita mais substância,
que é possivel de usar
a qualquer hora.
 
Desejo suas mentiras belas
para encorpar minha vida.
 
 
San, 28/02/13


quinta-feira, 7 de março de 2013

Do existir


Todo caminho tem uma intenção,
um roteiro,
um mapa mesmo simples,
e é claro um caminhante.

Caminho por lugares
que não conheço,
totalmente desprovida de desejo,
de conhecimento,
sem indicações,
e sem saber exatamente
quem é que esta ali a caminhar.

Esse é o retrato da minha vida,
absurda aos olhos dos reencarnacionistas,
patética para os fazedores,
aparente desperdício
de minutos, horas, dias, anos.

Não sei das borboletas
mas elas me parecem
apenas existir,
é assim comigo,
aprendi a existir.


San, 21/02/13

Viagem


Eu solto meu corpo
e escorrego para dentro de você,
num transparente azul tão profundo
que é quase como antes do nascimento,
antes da gestação,
antes de qualquer coisa.

Acredito em coisas invisiveis,
coisas que foram moldadas em palavras,
amor, respeito, entendimento, aceitação,
as sinto em mim,
é como a musica de fundo
do roteiro da minha vida.

Eu sei que sou uma pessoa que não vai a lugar algum,
sei que sou uma pessoa que anda em circulos
de livro a mão, olhos fechados,
labios entreabertos murmurando,
soltando suspiros longos.

Gostaria de ser uma grande arvore,
vigorosa, milhares de folhas, liquens,
raizes que saltam da terra
e se espalham em todas as direções,
com nichos para abrigar corujas e esquilos.

Mas eu não sou,
na verdade eu não sou tanta coisa,
fica bem dificil participar de algum clube
de mutuo interesse.

Eu não sou muita coisa bela,
eu não sou muita coisa bestial,
eu não sou muita coisa imprevisivel
e previsivel também,
eu não sou água, terra, fogo e ar,
não sou luz e também não sou escuridão.

Mas eu tenho,
eu tenho por enquanto muita coisa,
eu tenho muita coisa bela, bestial, imprevisivel, previsivel,
eu tenho as palavras magicas para conversar
com a agua, terra, fogo e ar,
e eu danço na luz
e finalmente aprendi a dormir na escuridão.

Ter é mais exato,
posso fazer uma lista incrivel do que eu tenho,
tenho centenas de certezas
e milhares de incertezas,
e tenho um espaço onde posso ser nada
e tudo ao mesmo tempo.

Então eu mergulho,
solto meu corpo
e escorrego para dentro de você.



San, 07/03/13

Mulher dos sonhos longos


Não quero lhe prender nos meus pesadelos,
o mundo real já é brutal o suficiente,
não é preciso acrescentar mais demonios,
furacões, batalhas milenares,
cabeças despedaçadas espalhadas pelo chão.

O que eu queria era ser conduzido ao seu mundo,
não que você mergulhasse no meu,
era isso que eu queria,
nuvens escuras que se dispersavam
e surgiam céus pintados de estrelas,
flores que despontavam de todos os lugares.

Não sei que força é essa que suga toda vida,
que suga toda luminosidade
até parti-la em milhões de pedaços
e joga-los nos espaços negros.

Amor somente minha morte poderá liberta-la,
soltando seus braços
para os lindos espaços azuis,
soltando seu corpo
para os sonhos puros.


San, 21/02/12

De ser homem


Homem se faz juntando dois ovos,
uma salsicha,
um bocado de preguiça,
cheiro de fumo de corda,
palito de dente para mastigar
o dia todo,
sapato velho esgarçado,
roupa solta e puída,
cheiro de sovaco,
gazes musicais,
muitas certezas absurdas,
pão com bife,
pinga, cerveja, tequila, martini, whisky, vermute, vinho, vodka,
agua sempre gelada,
sem camisa,
oculos escuros,
dormir mais 5 minutos,
sexo visual,
sexo imaginário,
sexo estranho,
sexo, sexo, sexo e para variar sexo,
camisinha esquecida,
um monte de filhos,
musculação,
futebol,
briga de torcida,
briga em bar,
luta livre,
pancada pura,
filme de ação,
filme de sacanagem,
filme de mistério,
risada nervosa,
filho da puta para os amigos,
miojo,
corrida para pegar o onibus lotado,
comentar sobre tudo,
deus que dá recibo,
emprego pelo salário.



San, 01/01/01

Poesia Impura


Não lhe criei para ter espaço,
vontade própria,
regozijo,
fazer perguntas,
duvidar da minha autoridade,
"És apenas uma mulher...".

Não lhe soprei o ar,
lhe dei a vida,
espaço, lar, acolhida
para ter idéias,
escolher seu próprio nome,
definir caminhos,
"És uma parte, um fragmento..."

Minha criação esta incompleta,
tua inteligência é só miragem,
apêndice de outro ser
esse por mim amado,
fadada ao pecado,
"És apenas poesia impura..."


San, 07/03/13

Respostas ao corpo


Vazio de perguntas
e respostas
apenas recebo
o que é luminoso.

Não me confronto 
com palavras,
não busco entender 
dramas desconhecidos.

Meu caminho é qualquer caminho,
meu desejo é qualquer desejo,
minha essência se espalha
em todas as formas.

Respiro a imensidão 
desatada dos limites e dores
que a consciência física impõe.


San, 07/03/13

quarta-feira, 6 de março de 2013

NINA


O tempo passou mas meu amor não,
e eu te amo como nas primeiras horas
em que você chegou em casa,
e foi saltitando para a minha cama,
aquela cama que não conhecia
mas já sabia que seria também sua.

Você era magrinha,
fraca,
marcada pela rua,
bem feia na verdade,
mas virou a minha feia,
a feia que eu quero perto de mim,
a feia que eu ainda tenho aqui,
para toda sua vida.

Passamos coisas inacreditaveis juntas.

Lembra da minha quimioterapia?

Claro que não se lembra,
cachorro vive um dia por vez.

Mas eu me lembro,
na primeira
eu vomitei em você
correndo para o banheiro,
não deu tempo,
e eu lhe batizei
em-nome-da-santa-quimica.

Sinceramente tive medo
de morrer antes de você,
tive medo de voce
ter que enfrentar a velhice
novamente na rua.

Mas me curei
e invento loucas estórias
que foi pelas suas preces
ao buda da medicina canina,
sua magia animal.
seu amor maior que o mundo.

Quando você chegou até mim
só tinha uma outra para dividir
o espaço, a ração, os carinhos,
agora já são nove,
e eu peço desculpas por isso,
pela casa estar essa balburdia
de latidos e agitação.

Mas vejo que realmente não se importa,
você aproveita a vida
no que ela tem de bom
não no que ela poderia ter além disso,
isso eu aprendi com você
prometo que nunca me esquecerei.

E de manhã cedo
quando tenho que tira-la da cama,
naquela preguiça
de cão velho,
eu sinto que vivemos
tantas maravilhas juntas,
eu me sinto melhor,
bem melhor,
por estar com você.


San, 06/03/13

No fim do meu caminho


Quando estiver bem velha
eu vou abandonar a mim mesma,
não vou dar esse gosto
a minha familia,
ser uma trouxa rota de roupa
que se joga em cima de um caminhão
e se perde facil
em qualquer lugar.

Sim, eu irei me abandonar,
primeiro meu nome.

Para que ter nome
sem ninguem para chama-lo?

Depois minhas qualificações,
afinal velho é considerado imbecil,
repudiado e tripudiado
no seu conhecimento.


E por fim minha história de vida,
coisa anacrônica
e sem gosto
para aqueles que ainda estão
começando a viver.

Eu vou me levar até uma esquina,
de alguma cidade grande,
bem movimentada,
colorida,
cheia de musica, 
cheiros, 
gente correndo,
e vou me deixar ali,
no meio de toda vida,
no meio da vida toda,
no fim do meu caminho.


San, 05/03/13