sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Poema sujo


Eu sou um estilhaço estranho
alojado a muito tempo
num hiato do seu ventriculo
pulsando, pulsando, pulsando,
as vezes doendo,
as vezes cantando,
cuspindo coisas no final da tarde.

Antes disso já fui muita coisa,
suja, incapaz, maligna,
uma carta de amor perdida,
gralhando como o corvo de Poe,
estrangeira nas terras do além voce,
o incomodo passageiro
que nos persegue nos escuros.

Em meio ao primeiro crash
em muitos anos de ansiedade eu lhe abracei,
voce me rejeitou,
aqui não é o pedestal das respostas,
é o lugar sujo das afrontas,
das palavras marrons, nausebundas,
que queimam e grudam.

Nunca serei a mulher maravilha,
não tenho angulos perfeitos, tetas, testa larga,
voz de ninfa, bunda pêndulo, boca bussola,
pés macios com unhas pintadas de vermelho,
eu tenho tudo aquilo que não se encaixa,
todos os defeitos dos conceitos.

Eu lhe ofereço apenas esse poema sujo,
que você poderá segurar
no casulo perfeito, pacifico, exclusivo.
entre suas inertes mãos,
com seus longos, brancos 
e claros dedos,
quando descansar finalmente 
de tudo que poderia ser,
quando descansar finalmente 
de tudo que conseguiu ser.



San, 01/02/13

sábado, 26 de janeiro de 2013

D E S F R U T E


Seja desavergonhado,
desfrute!

Ria, enfrente, dance,
tome emprestado,
lamba os dedos,
corra na chuva,
gargalhe alto,
desfrute.

Amanhã é um embuste,
o ontem não enche o prato,
use o que tem agora,
se é pouco seja um goumert,
olhe, cheire, toque,
prove pedaço a pedaço.
se é muito faça presente,
divida com os passantes,
enfie nas caixas de correio.

Quem aprecia vive melhor,
quem aceita se mantem inteiro,
a vida não manda conselho,
desfrute.

San, 26/01/13


Eu não estou falando de amor !!!


Já no primeiro dia 
você mentiu para mim,
uma mentira simples,
perceptivel,
mas eu fingi não notar
então fomos para o segundo dia.

No segundo dia 
foram diversas mentiras,
algumas estranhas,
outras apenas sem sentido,
mas eu fingi que estava enebriada,
então fomos para o terceiro dia.

No terceiro dia suas mentiras
já eram de um especialista,
mentiras que só ocorrem
depois de 3 a 4 meses 
de relacionamento,
mas eu fingi que não me importava,
então fomos para o quarto dia.

No quarto, quinto e sexto dia
suas mentiras se tornaram contundentes,
maldosas, corrosivas, magoadas,
mentiras acusatórias,
mentiras ditas para me causar dor,
e eu fui me encolhendo,
me escondendo,
me apertando no mínimo 
que me cabia.

No sétimo dia você descansou
e eu aproveitei para pegar minha mala
e fugir do paraiso.


San, 26/01/13

Meu jeito péssimo de amar


Eu queria tanto ser uma pessoa
generosa e paciente,
de palavras moderadas,
doces, angelicais,
direcionadas, congruentes,
plenas, reconfortantes
carinhosas.

É dificil lhe explicar,
é tão dificil!

Existe sim amor aqui e muito.
E igualmente existe muito também
de dor, desconfiança, vazio, medo,
insegurança, rejeição, sujeição.

Doses cavalares de tudo que é ruim,
e não as consigo separar de mim,
estão entranhadas numa trama
que se for desfeita
desmancha tudo,
até meu fragil eu.

É dificil lhe explicar,
é tão dificil!

Eu não quero lhe trazer dor,
nada nela me da prazer,
me envergonha sentir que lhe magoou,
espezinho, banalizo, sacrifico,
e choro pelas tormentas que lhe causo,
mas não consigo evitar
de ser essa pessoa 
em eterna tempestade.

É dificil lhe explicar,
é tão dificil!

Eu queria ser alguém
que temos prazer em convidar
para um churrasco com os amigos,
para o aniversário do sobrinho,
assistir uma maratona de filmes antigos,
comer um despretensioso churros,
até mesmo conhecer a ex namorada
aquela que ainda você mantem como amiga.

Eu queria ser alguém
por quem colocamos a mão no fogo
sem se queimar,
que não precisamos justificar
os atos, as palavras, a emoção,
que entendemos
sem precisar de muita conversa,
mas eu não consigo.

É dificil lhe explicar,
é tão dificil!


San, 21/01/13

BIRD


Enquanto eu saltava,
semi-livre,
semi-aprisionada,
meus olhos não estavam
no aqui e agora,
bela casa, pequena natureza,
proteção, comida farta.

Você estava comigo,
mas eu não estava com você.

Não por julga-la perigosa,
estranha, desumana -
palavra essa bem equivocada,
pois o que não é humano
não é necessáriamente mal,
sem valor, sem função.

Dentro de mim
sempre persistiu
aquilo para o qual nasci,
estando ou não
na situação.

Viver na imensidão,
voar em bandos,
sentir o nascer do por do sol
de lugares diferentes,
trabalhar pelo próprio sustento,
lutar por ele em diversos momento.

Colher a vida da própria vida
e não de uma caixa de supermercado
ou lojas que pretensamente
tem tudo que os mais
"diversos" especimes
de "animais" precisam.

Outra palavra
que me estranha,
animais somos todos nós
e não somente aqueles
com configurações fisicas
e geneticas diferentes.

Na dança dos cromossomos
somente vocês humanos,
tiveram o direito
de ser algo mais?

Você me comprou,
tratou, amou,
mas eu nunca realmente
estive com você.

Não compreendo
a necessidade humana
de ter a vida para a vida ter,
eu sempre tive tudo em mim,
nunca me afastei
da minha própria natureza,
apenas sou.

Não se sinta triste,
acuada pela lembrança,
o acaso me levou
até o começo real
da minha estrada,
era esse o lugar
da minha existência.


San, 23/01/2013
Dedicado a Marta


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Poesia da menina fazendo suco


Se eu fosse flor de maracuja
teria muitos namorados,
poucas são tão mais vistosas,
perfumadas
e surpreendentes.

Se eu fosse flor de maracuja
nenhuma situação me afetaria,
e qualquer coisa bastaria me recolher
intimamente,
maracuja cura a si mesmo,
seria bem calminha.

Se eu fosse flor de maracuja
teria muito menos medo,
cada petala que caisse
uma coisa melhor
estaria sendo preparada,
perder não seria dano.

Não importaria
onde estivesse brotando,
num grande quintal
ou na pequena rachadura
de um muro velho,
com minha grevilhas
iria subindo,
ultrapassando tudo,
ganhando mundo.

E não teria medo
das coisas fedorentas,
meio brutais
e estranhas do mundo,
como maracuja
saberia o valor
as Mamangabas.

San, 07/01/2012


Ignoro Ignata Amara

 
Não sentir você
me faz ser um pouco mais excluida,
mas melhor ser apartada do comum
do que negar meu mundo interior,
então me mantenho firme
na minha própria ignorância.

E falo da minha ignorância 
como algo que se baseia
em todas e tantas coisas
que existem
e eu ainda não sei,
coisas que serão pesquisadas,
analisadas, experimentadas,
coisas para os próximos 100 anos.

Ainda ignoro muitas coisas,
muitas coisas maravilhosas,
quase inacreditáveis,
surpreendentes,
ou mesmo coisas simples
mas poderosas
e intensas.

Houve uma época
em que fingia saber tudo,
era uma forma de não ser achatada
pela grande pressão atmosférica
da vida adulta.

Então percebi
que não é ruim não saber,
não é destrutivo ou pecaminoso,
feio é negar que não tem nada além
do que já sabemos,
negar milhares de outras
realidades.

Mas também é feio
fingir que ainda se acredita em coisas
que não existem mais,
nunca existiram
ou tiveram sua data de validade mental
expirada,
fingir fé por algo
que já morreu a muito tempo,
adorar um idolo
que nem sabemos mais
o que significa.

Não consigo mais
amar a imagem do panfleto,
as palavras desconexas
dos livros de ficção
da antiguidade,
não me contento
com a promessa apenas,
não me sustento
apenas de energia.

Um dia minha ciência
foi a religião,
agora minha religião
é a ciência,
amanhã não sei
o que será,
talvez pique esconde,
amarelinha,
talvez uma poesia
de Florbela Espanca,
quem sabe um x-burguer duplo
do Burguer King.

Quero a vida não condicionada,
a vida que viaja
por todas as idéias
e palavras,
a vida que existe
além da minha ignorância.

San, 07/01/2013

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Tatuagem de sangue


Por algum tempo eu achei
que toda imensa dor
que havia dentro de mim
poderia sair fisicamente,
mecanicamente,
então eu escrevia
em meu corpo.
 
Palavras
que não conseguia dizer,
não conseguia digerir,
palavras que não queria ouvir,
não queria entender,
palavras feias
e grudentas
que pulavam no ar
e puxavam meu cabelo.
 
Antes que elas
fossem sugadas
pelo meu espirito
eu as agarrava
e as escrevia em meu corpo.
 
Por alguns minutos
tudo era silencio,
enquanto o sangue escorria,
tudo era silêncio,
tão calmo,
tão puro,
sem nada
que pudesse me ferir.
 
Mas nas suas marcas
as palavras
continuavam vivas,
como uma tatuagem,
continuavam a contar
de forma sorrateira
toda a história da dor,
toda a história da culpa,
tanta história de abandono.
 
San, 25/12/2012


Vergonha

 
Eu fui um pacotinho
que você não quis,
e possivelmente não cheguei
num belo embrulho.
numa data especial,
com fogos e bolo e sorvete.
Possivelmente vim numa hora
inconveniente,
entrei pelos fundos,
escondendo minha vergonha
por existir
e estar ali.
Não sei como sobrevivi 
sem seu amor, 
mas até hoje sinto fome,
sinto fome o tempo todo,
mesmo depois de me alimentar
aindo sinto fome,
deve ser de tanta coisa que faltou,
falta de aconchego,
falta de olhar,
falta daquelas palavras tolas,
ditas com aquela voz estranha,
que as pessoas usam 
quanto estão emocionadas
com aquilo que esta ali,
dentro da sua vida.
Eu me embaracei
nos cipós da vergonha,
nos laços da tristeza,
fiquei presa na sua infelicidade,
me perguntando
porque não era suficiente,
porque não merecia,
porque não podia mudar tudo.
E assim eu cresci
essa pessoa que sente
pouco de tudo,
pouco do que é ruim,
pouco também do é bom,
pouco da tristeza
e da alegria,
pouco da amargura
e da esperança,
pouco da magoa
e da sinceridade.
Esse pouco não basta
para fazer um ser inteiro,
com dois olhos,
uma boca,
duas mãos,
duas pernas
andando para a frente,
tive que ir perdendo pedaços,
espaços que podiam contornar
para não sentir,
para não mergulhar novamente
na sua dor.
 
San, 25/12/2012

CHAI

 
O movimento se estanca,
antiga dança do cotidiano,
o cheiro enlaça a alma
e por alguns segundos
projetada sou a outra parte do mundo.
Cachorros latem,
crianças rindo correm,
bicicletas encontram espaço
entre velhos carros absoletos,
alguem coa um chá
ali mesmo na rua empoeirada.
O cheiro se espalha,
canela, cominho, aniz estrela, cravo, rosa,
leite fervido coado em pano,
pão amanhecido
molhado na água com mel
e requentado na chapa.
Estou novamente
em outra parte do mundo
e me pergunto agora
porque tanto tempo
me protegi da dor,
me protegi da vergonha,
me protegi de aceitar
que ainda pertenço
a algo muito antigo.
 
San, 25/12/2012