quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Até o final do mundo e além


Eu não consigo mais acreditar em Você.
 
Mesmo que me tragam estudos
e teorias profundas 
da fisica quântica
e a experiência direta
 de pessoas confiaveis e sábias.
 
Não é mais questão de querer
e sim de poder.
 
Pelo jeito tudo se resumia a quimica do cerebro,
receptores, proteinas.
 
Eu não tenho mais a substancia especial
que me levava a senti-lo presente,
vivo, luminoso, real
dentro e fora de mim.
 
Eu não consigo mais acreditar em Você.
 
Como uma paixão intensa que se foi sem deixar nada,
nem sei como pude um dia ter tamanha proximidade,
entrega, ligação, prazer, confiança.
 
Não sinto falta de acreditar,
não sinto falta de procura-lo,
não existe um vazio
onde havia crença,
existe sim um campo imenso,
florido,
onde eu corro livre,
tranquila,
sem expectativas.
 
San, 07/12/12
 

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Saudades de um amor desconhecido


Sinto falta de algo muito prazeiroso,
que no entanto não sei o que é,
apenas sinto falta,
um sentir tão intenso
que me desconcerta.
 
Como posso sentir falta
de algo tão significativo
que não conheço?
 
É como sentir falta de passear
pelas ruas de Paris
sem nunca ter ido lá.
 
Sentir falta do cheiro,
do gosto,
da textura
de algo que nunca
foi sequer
vivido, 
imaginado,
desejado
 
Mas sinto saudades,
muitas saudades,
dessa coisa tão importante
que nunca experimentei
e não sei o que é.
 
Talvez seja você,
talvez seja novamente você,
que esteja tão perto,
tão longe,
tão ausente,
e presente,
que se faça real
onde só existe sonho.
 
San, 03/12/2012
 

MOTHER 2

Que bom pode chorar hoje por você!

Que bom me permitir sentir sua falta!

Que bom de repente
seu rosto surgir
em meio as minhas lembranças!

Uma imagem sua
cozinhando algo gostoso
e ouvindo musica na cozinha,
talvez dançando enquanto mexia
as panelas.

Era você mesma?


Que bom finalmente deixar
que você exista,
além dos gritos e dedos apontando,
deixar que sua risada exista,
um corpo vivo,
realizando, criando, experimentando.

E as lagrimas descem
apartadas de dor ou cobrança,
sem se misturar ao cinza nevoeiro
dos ressentimentos.

Foi certo existir você!

San, 03/12/2012


MOTHER


 
Você é minha primeira fantasia,
de todas a mais importante alegoria,
e mesmo que nada daquilo
tenha acontecido,
em um mundo profundo,
foi reunido,
os pedaços perdidos,
e restituido
ao amor que não expira,
que não machuca,
que não esquece,
que não desiste.
Ali você me amou,
ali eu lhe pertenci,
como um presente,
tão desejado,
como um sonho,
realizado.
 
San, 01/12/2012

Calabouço

Eu me espanto
com que a mão esquerda
silenciosamente cria
enquanto a direita
prepara um sanduiche.

De repente algo surgiu ali,
vindo de não sei onde,
e uma coisa que parece ter valor,
critério, profundidade,
algo que posso amar.

Naturalmente não posso reconhecer como meu.

Sempre fui uma menina obediente,
aceitei a raiva oferecida como parte de mim mesma,
absorvi e gravei as lições de intolerancia,
melancolia, medo, insegurança.

Me espanta ver algo surgir
vinda além do desequilibrio da minha familia,
do desespero da minha mãe,
do vazio do meu pai.

Eu me espanto que a mão esquerda
seja de alguém que esteve em minha infância
mas não continua nela,
seja de alguém que vem de toda uma grande
linhagem de dor,
mas que criou seu próprio espaço,
presença e consciência.

Então escondo suas rimas,
pautas, sugestões, desenhos,
os guardo entre paginas de velhos livros,
como amostragem de mim mesma,
para ser encontrado pelo meu futuro.

San, 30/11/2012


O efeito do defeito

Caiu, quebrou, colou,
resistiu, persistiu, registrou,
continuou.

Caiu, quebrou, doeu,
recolheu, embaralhou, observou,
absorveu, entendeu, descartou,
sonhou.

Caiu, quebrou, resistiu,
amordaçou, fugiu, reclamou,
espantou, perguntou, buscou,
cansou.

Caiu, quebrou, lamentou,
esperou, fingiu, esqueceu,
mancou, arrastou, deitou,
dormiu.

Caiu, quebrou, chorou,
limpou, entregou, perdoou,
apaziguou.


San, 01/12/2012


Vácuo


Retire meu nome,
minhas roupas,
minhas lembranças,
meus números,
meus títulos.

Retire meus livros,
agendas,
celular,
técnicas,
crenças,
amigos.

Retire meus hábitos,
verdades e mentiras,
horários,
prazeres,
minha atrapalhação,
meus pontos cegos.

Retire minha família,
minhas dores,
minhas conquistas,
meus obstáculos,
minha meditação diária.

Sobrou o vácuo,
criador da verdadeira
natureza.

Existe um ponto 
em que não sou nada.

Não tenho expectativas
para falar da minha sorte,
não tenho mente
para temer a minha morte,
não tenho desejos
para elaborar meu futuro.

Não existe luz ou sombra,
não existe parecer ou ter,
adquirir ou persistir,
ser ou não ser,
apenas ali, aqui, 
em todo lugar,
finalmente o vácuo.


San, 03/12/2012


sábado, 7 de julho de 2012

PAI



De braços fortes
e coração mesquinho
tomo a vida para mim,
eu me despeço amigo.
Aquilo que eu comecei
sem certeza e intranquilo,
agora com dor termino,
eu me despeço amigo.
A maré vai subindo,
e antes do sol a pino,
tomo meu rumo sozinho,
eu me despeço amigo.

San, 05/07/2012

Teatro


O tolo acredita
que tem opinião.

O sábio sabe 
que a opinião o tem.

Não somos donos de nada
nem dos nossos desejos,
nem dos nossos pensamentos,
muito menos da nossa ideologia.

Nossa boca abre e fecha
pela boca dos outros,
palavras escolhidas
e acrescentadas
por mãos quase invisíveis
que vão puxando
o longo fio que nos direciona.

Vivem qual parasitas, 
se fartando da nossa força
que é tomada por eles.

Sonhamos ser livres
quando não temos nada.

Quisera falar agora
daquilo que não conheço
mas isso não me foi permitido
não sou integra para chegar a tanto.

Até minha revolta e espanto 
é teatro
na liberdade restrita
dos meus donos
vigilantes.



San, 07/07/2012

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Restituido

Desnecessário é
esse preambulo
entre tão poucas
palavras.
Quero apenas
suspirar
meus sentimentos.
Procuro algo
que possa conter
meus silencios.
Dia a dia
a saudade
é afogada
no meu coração.
Nâo estou mais aqui,
meu corpo tem sido
possuido
pelos espiritos
do que eu fiz.
Havera um dia
onde enormes ondas
se abaterão
neste deserto
da solidão.
Desnecessário é
afirmar a dor
do amor desconhecido,
restituido,
permitido,
destruido.

San, 01/06/2012