domingo, 14 de agosto de 2011

Cantos


Voando em espiral,
resvalo meus pés
na beira dos abismos 
sensoriais,
desejos e escolhas
do mundo material.

Um dia já estive aqui,
não estava perdida,
foi daqui que eu saí
mas não poderei voltar
até que cicatrize a ferida
e saia essa mancha funda.

Mas em sonhos
eu sou tragada
pelo seu canto
e novamente eu sou
aquele ser
sem qualquer importância,
mas feliz,
aquele eu não distraído,
não perdido,
aquele que sabia 
pouco e tudo,
que apenas abria uma pagina 
de um imenso livro
e tudo estava resolvido.

Agora sou uma folha 
girando ao vento,
mas às vezes o vento
 me traz seu canto,
e eu me reconheço.



San, 12/08/11

Derradeiro


Eu sou a ultima,
 e ninguém consegue ouvir
minhas palavras.

Eu sou a ultima,
e me despeço
desse mundo inigualável,
intraduzível,
inexplicável.

Eu sou a ultima
e não deixarei algo
para ser lembrado,
ou transmitido.

Nenhum descendente,
procedimento,
nada que fale a multidão.

Eu sou a ultima,
pertenço a um passado,
inimaginável,
inadequado,
impossível de ser entendido.

Eu sou a ultima esfera,
o derradeiro crash,
eu sou o coração pulsante
do mundo.


San, 14/08/11

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Chuva Azul


As vezes eu sonho com a chuva
e no meu sonho ela é sempre azul brilhante
como pequenos pontos pulando
do céu para a terra
e envolvendo tudo
com sua luminosidade.

As vezes eu sonho com você
mas consigo lhe ver apenas de longe
como a ponta de uma cabeça
se sobressaindo numa multidão
e você esta sempre com um chapéu laranja
como que para ficar mais visível para mim
mesmo de longe.

Não sei ainda porque me lembro de você
se nem ao menos lhe conheço,
menos ainda porque sinto tanto sua falta,
a falta de alguém que nunca jantou comigo,
nunca fomos ao cinema,
ou comentou animadamente um livro.

Você não é real e nem ilusório
não foi criado pelo meu desejo,
situação ou oportunidade,
no entanto esta presente
numa chuva azul,
uma cabeça laranja entre a multidão.


San, 18/07/11

Tem um minuto ?


Palavras pulam vivas
da minha boca,
fugindo do meu coração
magoado.

Se enroscam
no seu olhar piedoso.

Tem um abraço ?

Preciso me sentir
viva de novo
e de novo viver a vida.

Palavras pulam sofregas
da minha boca
fugindo das tardes sozinhas.

Abraçam seu olhar macio.

Tem alguém deste lado,
do seu lado,
de todo lado,
de tudo que é lado
tem alguém que precisa.

Abrace forte,
minta muito,
sorria sempre,
estenda a mão.

Tem alguém do seu lado,
deste lado,
de todo lugar,
tem muita gente no mundo.

Tem um minuto ?




San, 08/08/11

North lights


Aguardo esta manhã
onde serei novamente nada
dentro do seu corpo
se misturando a todas luzes
que se expandem 
através do seu desejo.

Nunca quis ser mais 
do que parte
restituindo aquilo 
que sempre imaginei
um dia de luz fragmentando 
tudo de mim
até ser apenas 
sua imensidão.

Eu lhe busco 
de todo meu coração
em cada parte 
eu sei que esta faltando
aquilo que me fez 
e me soltou
como um abraço forte,
ainda posso lhe sentir
mil corações 
batendo dentro de mim.

Não é utopia, filosofia ou religião,
estou em tudo e tudo esta em mim
todas dores doem 
quebrando cada parte,
o amor desconhecido,
e a razão que em alguma lugar 
se esconde.

Eu sou o verbo espalhado,
eu sou o seu resquício amado,
sou sua palavra pura,
agora apenas escrita.

E todos são a luz do norte 
que lampeja,
enfim descansei em ti
voltando a ser sua exalação.

Voltarei a seu imenso corpo
toda impregnada da vida 
que não se perde,
eu sou sua poesia.







San, 01/08/11

Caminhos


Existem muitos caminhos
e num deles você zela por mim.

Quando eu choro posso lhe sentir
olhando através do fio
da minha vida.

Nos sonhos você me abraça
e me protege na escuridão.

No mundo coisas vem e vão
coisas tolas, pequenas,
perecíveis, sem função.

Saiba que sempre lhe amarei,
e a vida não será obstáculo,
e nem redenção.


San, 10/08/11

domingo, 17 de julho de 2011

Mistério


Dadinda tem saravá,
dança sacoleja espuma peleja,
corta o vento como peneira,
abana as franjas do misterioso,
saindo de lá dentro a mão da véia.


E a véia sabe das ervas defumação canto rezas
banhos garrafadas assentos comida,
de tudo sabe a filha da filha da mãe da avó.


Dadinda tem saravá
energia onda frequencia pulsão
antes do home pai filho espirito santo amém


Dadinda pelejava atras da caça
calango gato do mato gamba pombinha
caçadora benzedeira mateira parteira cozinheira
filha de escravos alma livre mulher do misterio.


Dadinda tem saravá


AXÉ.





San, 04/06/11

Interrupção



Não sei o que mais doeu
sua chegada ou sua saída,
não sei o que mais sou eu,
inteira ou toda partida.

E existem coisas
que ninguem consegue responder,
e muitas outras
que é impossivel esconder.

Minha dor canta
de manha cedinho,
as vezes se encanta
com o seu mundinho.

E me chama para fora
para o novo mundo
que é o mesmo antigo
sem saber de tudo.

E eu vou cantando:
segura seu coração criança!
cuidado com o passarinho!
ele vem de longe
e leva seu coração
para fazer seu ninho!

Tem tanto mistério
dentro do meu peito
nesse grande abismo
dos amores imperfeitos.



San, 10/07/11

Silêncio



É claro para mim 
que esta em outro mundo,
um mundo estável, agradável, equilibrado
onde não existe a preocupação 
em possuir um o corpo, o dia seguinte,
em explicar sua intenção, 
referendar sua direção,
é um mundo de apenas SER.


Longe de mim negar 
todas as diversas alternativas
que a mente cria para voltar 
ao seu ponto de partida,
longe de mim negar a importância
das danças, musicas, roupas,
emblemas, palavras, designações,
grupos, mortificação, experimentação,
soltura, procura, enlevo, queda,
entendimento, transmutação.


Longe de mim negar 
aquilo que o ser humano designa mistério
ou caminho para o Divino,


No entanto quando olho para você
vejo um atalho dentro de mil atalhos,
vejo que não existe 
a necessidade da jornada,
passos duros, testes de aptidão,
sofrimento, entrega, devoção,
não existem nomes, classes, diferenças,
necessidade de submissão,
nem ao mesmo bondade e retidão,
apenas um grande silêncio
intenso, profundo, envolvente.





San, 17/07/11

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Correnteza


Mergulho na correnteza de dor,
até que fragmente todo NOS,
e assim o meu que era seu,
e o seu que nunca foi meu,
evaporam no fluxo 
das tristes lembranças.

Sei que você me espera em algum lugar,
sem perceber que nunca voltarei,
que nem ao menos sei como chegar.

Me banho hoje nas águas frias 
dos amores perdidos,
lavo todas risadas, 
toda vida partilhada,
e assim fico muito mais nua 
do que quando aqui cheguei,
este lugar que não reconheço,
onde me recuso a simplesmente existir.


San, 04/07/11