domingo, 25 de janeiro de 2026

Retorno



Ter um vicio 
é como mergulhar
nas profundezas
de águas escuras
desconhecidas
barrentas


Dá medo
mas para que isso ocorra
algo mais aterrorizante
precisa estar
na superfície


No inicio ainda temos força
folego, intenção, determinação
só depois percebemos
como vamos sendo 
pouco a pouco
desvitalizados, 
amortecidos
puxados cada vez mais 
ao fundo


Apesar de não vermos nada
de não existir nada além daquilo
a água profunda, escura e lamacenta
criamos histórias, imaginamos coisas


As vezes unicamente o que temos
são as companhias a nossa volta
doloridas, más, tolas, interesseiras
ou apenas ignorantes
igualmente perdidas
todos fugitivos


E quando o ar acaba e percebemos
que precisamos subir a superfície
se quisermos realmente viver
e não apenas sobreviver
começa a grande batalha


Muitas forças nos empurram para baixo
cada vez mais fundo, mais escuro
o habito, mesmo ruim, o medo
o esquecimento de tudo mais
tudo de antes do mergulho


Voltar é um ato de fé em nós mesmos
quando nada mais nos dá esperança
é feito na instabilidade, no escuro
entre gritos, escarnio, risadas loucas
as diversas vozes que afirmam 
que não temos capacidade para tanto


No meio do caminho 
sentimos a morte
e ai finalmente entendemos 
que queremos a vida
não uma vida idealizada
a vida dos outros
mas a própria vida
seja ela qual for
mesmo desagregada


Nesse momento aterrador
muitos simplesmente desistem
aceitam viver entre os escombros
do que eles mesmo criaram
se perdem ainda mais
na impossibilidade


Outros empreendem 
com mais determinação
a pouca força que lhe resta
em braçadas dilacerantes
que doem tanto quanto
não ter mergulhado
e ficado naquela 
antiga superfície


Poucos muito poucos
percebem que já estão mortos
que não é possível voltar a nada
passado não é carro que tem marcha a ré
quem existiu antes já se foi a muito tempo
nada existe agora a não ser o vicio


Então soltam corajosamente 
seu corpo, sua intenção, seu desejo
com o rosto voltado
 a pouca luz da superfície


Se esvaziam apenas
sem saber ou não
se serão devolvidos


Apenas não se diluem mais
nas águas turvas, 
nas emoções turvas
no ambiente turvo


Se soltam 
como no momento do nascimento
sem saber para onde estarão indo
sem saber se alguém mais estará la
sem conhecer nada 
do mundo e de si mesmo




San, 25.01.2026