terça-feira, 11 de novembro de 2014

Capsulas


Tantos lindos sonhos
encarcerados
nas capsulas
de esquecimento.

Mais um dia
menos um dia
e seremos todos nada.

Quebrados
e jogados na grama
seus amados brinquedos
agora detestados
e despidos
de enredo.

Menos um dia
mais um dia
e seremos tolos nada.

E as velhas canções de roda
como insanas ladainhas
rezam para as almas
que já foram meninas.



San, 11/11/2014

Cagão social clube


Ser cagão é uma ótima técnica 
de sobrevivência.

Não ter posição, 
não tomar partido, 
não ter ideia pronta
e nem conceito exclusivo,
não defender nada,
entender tudo.

Transformar 
o politicamente correto 
no corretamente covarde.

Deixar que o mundo siga, 
esperar o frigir dos ovos,
ver no que vai dar 
depois de um tempo,
mais adiante.

Para que arranhar a imagem?

Perder a mascara
do bom moço,
calmo,
tolerante,
evoluído
com bom senso?

Melhor ficar de lado,
observando calado,
deixar a água rolar
sob a ponte,
a água fria, cortante,
suja, venenosa,
que segue levando
montes de corpos, 
mortos
pela costumeira indiferença.



San, 11/11/2014

Conselho do dia



Meu irmão me aconselhou
a esconder as coisas
que as pessoas não gostam
ou não podem entender
para ter uma vida melhor.

É estranho viver 
segurando a vida
para não magoar pessoas
que não sabem viver.

No Brasil temos o hábito
de varrer tudo para baixo 
do tapete do tempo.

A mãe que registra como sua
a criança parida pela filha.

O rapaz que casa com uma estranha
para não confirmarem que é gay.

Jurista que dirige bebado
e quando parado
manda prender o policial.

Religioso que pede nota de despesas
bem maior do que os gastos.

O pai que fica alheio
a mãe que maltrata o filho.

A mãe que não enxerga
o pai que abusa da filha.

Gente que inventa ser doente
para receber pensão.

Gente que finge ser saudável
para poder trabalhar.

Todos pedem mais paz, 
amor e segurança
mas adoram assistir filmes
de violência, matança e terror,

Somos um país de mal resolvidos
desorientados e hipócritas
que tem o habito 
de tomar conta e palpitar 
sobre a vida alheia.

É estranho viver num lugar
onde as pessoas
tem a alma tão doente.



San, 11/11/2014

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Scăpare


A muito anseio respirar
longe da sua atenção,
do seu amor intenso,
insano,
deslumbrante,
hera que se espalhou feroz
 até cobrir
toda nossa diferença,
absorvendo meu cotidiano.

Não conheço mais
minha própria identidade
tão unida esta a sua,
estou limitada
ao ambiente protegido
e delirante
que criamos
para nos encerrar.

Irei sem malas,
em silêncio,
sem escalas,
sorrindo,
sem despedidas,
num único salto,
cruel e maravilhoso,
para dentro da luz.



San, 05/112014

Rakkaus


Congelei com seu amor,
lhe queimei com meu amor,
apagamos o mundo.

Criamos o antropo sexismo, 
destruímos todas as outras 
necessidades,
particularidades,
conflitos,
limites.

Como um ponteiro de relógio
que não ponde avançar
paralisamos a vida
dentro de um abraço,
num beijo diluente.



San, 03/11/2014

Grá


Solte
eu estou tão perto.

Solte
eu estou atento.

Solte
eu estou tão certo.

Finalmente vamos dançar
nesse lugar mágico,
uma musica longa,
em meio a pessoas estranhas.

Solte,
mergulhe,
se solte,
eu pego.



San, 05/11/2014

Capturar a vida


De noite mantenho 
meu coração puro,
como um fiel cão 
dormindo ao seu lado,
confiando no seu cuidado,
entregue ao nosso destino.

Eu nasci velha,
você cresceu ao contrário,
e pelas bordas 
dos mundos paralelos
nos víamos entre as fagulhas
espalhadas pelo vento,
seu coração ardia pintando,
e o meu soprava poesia.

Quantas vezes teremos ainda que nascer?

Quanto mais teremos que morrer
para capturar a vida?



San, 04/11/2014

Esta na hora?



A muitas luas eu durmo
esperando você acordar
parte de mim desconhecida,
parte de mim essencial,
parte de mim presumida.

Fui esvaziada de sonhos na infância,
porque desejar era um grande pecado,
acreditar causava uma grande dor,
lutar provocava grande cansaço.

Desde então me enrodilho
em meus próprios braços vazios
e me preparo dormindo,
dormindo para lhe libertar.

Ainda não sei quando poderei acordar.


San, 05/11/2014

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Clube da Poesia


Poesia não se come,
poesia não se bebe,
poesia não se veste,
poesia não se habita,
mas a poesia habilita 
a guiar carros fantasmas
por estradas de sonhos.

Poesia 
esse inútil precioso,
serve para liberar
o que esta preso,
e conter aquilo 
que é etéreo,
rainha dos paradoxos,
disparate da cognição.

É feita em letras, 
suspiros,
fonemas,
desejos,
verbos,
lágrimas,
adjetivos,
risadas,
pronomes,
linguagem dos insanos
mergulhados 
no maravilhoso.


San, 31/10/2014

Do mundo


Quero meu corpo, mente, espirito,
conectado e presente a toda criação,
e não aprisionado
em pequenas caixas brilhantes
que tocam musicas
e carregam palavras
de seres distantes e distintos,
atordoados e inconscientes
do movimento de toda vida.

Não sou uma pessoa tecnológica
mantenho com a vida uma relação analógica,
curiosa, apaixonada, festiva, anacrônica,
que necessita do toque,
odor, sabor, profundidade, 
percepção em todas dimensões,
experiência direta em tempo real.

Não posso mastigar pela boca alheia,
sentir a textura a mil quilômetros,
vibrar com as fibras de outro coração,
entender por outra mente,
realizar por outras mãos.

Não sou uma pessoa do mundo
sou uma pessoa para o mundo,
para o vasto mundo 
que aguarda ansioso 
corajosos e destemidos andarilhos
de forma presente,
corpo, mente, espirito,
sem garantias,
sem guias,
novos desbravadores.



San, 30/10/2014