terça-feira, 16 de agosto de 2011

Redenção


Me libertei de lhe odiar,
aquele ódio pomposo
cheio de lógica e motivos,
simplesmente perdeu o sentido
quando você perdeu seu corpo.

Sua morte foi liberdade para nós dois,
me permitiu o tempo futuro,
o fim dos pesadelos,
da dor crônica na coluna,
a cura da fratura no amor próprio.

Abrir mão de lhe odiar
não foi uma conquista,
aconteceu de forma inesperada,
como magica, inexplicável.

Sua morte simplesmente apagou
toda a dor, raiva, magoa
que já havia sentido.

Muitas vezes prometi
que nunca mais viveria 
daquela forma
insegura, desequilibradasem amor.

Nunca consegui realizar esse desejo,
de alguma forma sua existência
me levava de volta aos tempos de privação,
desconforto, angústia, humilhação.

Somente quando soube
do desaparecimento do seu corpo,
ai sim os anjos voaram sobre mim,
veio a redenção.


San, 17/08/11

Na praça vazia


Eu vivo das suas migalhas,
mas não lhe dei permissão 
para surrar minha alma,
respeite minha dor limitação.

Eu não sou seu escravo,
e nem ao menos vou agradecer
por estar assim tão cheio de vontade
de me afastar das minhas imundices.

A rua é bem publico
e venho a rua para lhe dizer
que não sou seu farrapo,
nem fui feito para lhe dar prazer.

Eu vivo das sobras do mundo,
desse mundo que tanto sobra quanto falta,
sou eu que escolho alimentar primeiro
as ilusões ou as necessidades.

Eu não sou seu amigo,
e não vou me emocionar
por você estar assim tão determinado,
e me afastar das coisas 
que preciso para viver.

Eu não fiz esse filho,
eu não vim deste pai,
mas somos a mesma família,
do mesmo gênero,
você me engana sempre
e eu aceito o engano que me dá.

Eu vivo das suas migalhas,
da sua admiração ou nojo,
eu sou o prêmio pomposo,
eu sou o buraco sem fundo.



San, 07/07/07

TANGO


Voltei a ti corpo ardoroso,
nos teus volteios recebo essa graça
do prazer que ultrapassa o meu tempo
e com intento eu me quedo a este delírio
sem flagelo eu giro em teus braços.

Sou uma bela folha ao vento,
mulher livre apaixonada,
empurrada pela vida em movimento.

Voltei a ti ardoroso corpo,
aos teus desejos longos claudicantes
que eu ensejo ocupar breves instantes
e sem intento eu me quedo novamente
ao seu desejo que se pronuncia vil.

Sou uma flor que se esmaga neste passo,
mulher louca enciumada,
no compasso dos corações servis.

Voltei a ti corpo ardoroso,
e de tão moço já não sei o que tu fez
pois aquele que em silencio me mentia
agora amores grita de emoção.

Eu não quero acompanhar o movimento
não sei mais dos seus volteios sensuais,
minha perna bambeia de antemão,
só me recordo da musica tão triste
como triste sempre foi meu coração.


San, 16/08/11

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Descobertas


Agora vem seu tempo
de simplicidade e amor,
fim do medo, agonia e dor.

Nada mais de aguardar
sem saber o que fazer
num lugar escuro,
estranho e sorrateiro.

Bem vindas descobertas,
o dedo foi feito para chupar,
e as pernas para chutar.

O mundo todo existe
para descobrir
aquilo que gosta
e que lhe faz feliz.

Chegou o tempo
de esticar os braços
em todos os sentidos,
girar a língua, cuspir,
morder os bichos.

E o mundo estava
esperando por você,
nada mais havia
para acontecer.


San, 01/04/86

Reis magos



Pai me ajude a sair deste mundo
do mesmo jeito que cheguei
puro, simples, despojado, aberto,
sem ódio, sem inimigos,
sem idéias prontas
que me afastam de tudo.

Eu já passei pela estrada estreita,
o caminho da negação e incerteza,
por muitos anos fiquei a deriva
me transformando em tanta coisa
escura e desconhecida.

Saltando do mistério para o absurdo,
crescendo em corpo,
diminuindo em certeza,
quebrando todas as regras,
abusando da sorte que nunca tive.

Num dado momento me vi em detalhes,
aquele que carregava as dores do mundo,
compreendi que já era completo e não sabia,
chorei pelo homem que havia me tornado
e então finalmente eu emergi.

Pai me ajude a sair deste mundo
do mesmo jeito que aqui cheguei
seu filho amado, 
desejado e consciente.


San, 01/01/01


Ser flor não doi nada


Fiquei quieta!

Não fungue, não responda, não murmure, 
não pergunte, não cante, não suspire,
apenas respire superficialmente,

Sem se mexer, sem pernas balançando,
sem estalidos e dedos dançando,
sem fazer alarde da sua presença.

Seja uma flor !

Seja uma flor num campo aberto,
ao sol, no vento, quieta.

Ser flor não doi nada.



San, 21/02/71

Agua fria


Quem busca a pureza do mundo
tem trabalho menina !

Faz muque nessa tarefa de tardes longas
e noites desmaiadas de cansaço.

Quisera eu que tudo fosse 
dançar uma valsa
rodopiando sem parar num pé só,
os dedinhos descansando.

A mão em carne viva comprova
que o mundo todo esta em nodoas
no pouco entendimento do grande pecador.

Quem busca a pureza do mundo
tem muito a praticar,
banhar o corpo, lavar a roupa, arejar a casa,
sacudir a poeira dos cantos da mente.

Tem tanta coisa menina
que a gente não consegue fazer !



San, 06/06/06


Fluido puro extenso livre
solto arrebatador acelerado
entre cores flores vento
lhe observo assim sem respirar
olhos boca mente escancarada
sorridente maravilhada.

Assim é você
nada a explicar
nada a entender
é parte da sua substancia
assim é a fé.




San, 15/08/11

Morning Glory


E é apenas mais uma gloriosa manhã
em que acordo de tantas formas,
algumas desconhecidas,
tão feliz vibro ao seu esforço
de me expandir a vida.

O seu toque é como 
as primeiras luzes nascente
aquecendo todo meu corpo,
iluminando o mundo
e traduzindo o que era
antes desconexo.

E é apenas mais uma gloriosa manhã.

San, 14/08/11

મરીનાબીચની




Somos partículas de luz
espalhadas pelo universo,
seres microscópicos
que pensam grandes mundos,
cegos navegantes
do desejo e do medo,
paradoxos
insubordinados.

Deixe que essa musica
seja um sopro 
que saia direto 
do seu coração.

E agora dentro 
do seu corpo-sopro,
observo o
grande mistério,
absorto.

Mais uma respiração
e tudo se vai,
observo o abandono,
samadhi,
coragem.


San, 15/08/11