domingo, 4 de julho de 2010

NEFERTITI


As margaridas 
morrem de frio
no seu alpendre moderno
eu conheço profundamente
todos seus céus e infernos,
em cada um eu fui santa,
bruxa, magica, bandida,
destruí muitas certezas
construí novas saídas.

No seu quarto aberto
vazado para o infinito
ainda posso ouvir
seus murmúrios, 
gemidos e gritos,
construí com fogo e água
todos os novos mitos.


E assim que passarmos
a linha imaginaria da dor
alcançaremos a lendária
ilha perdida do amor.


E nela encontraremos Nefertiti a bela
ainda embalsamada,
hoje ela é apenas uma sombra
esquecida embaixo da escada.


Mais do que posso dizer
posso em meu corpo mostrar
as facas da sua saudade
estão a me torturar.


E as margaridas secam lá fora,
sem água, abrigo, poesia,
não importa a mais ninguém
que venha um novo dia.



San, 06/09/2005

Apocalipse



Me desprendo de toda dor
e mergulho para a luz,
morrendo e renascendo,
viverei apenas para aquilo que é real,
abandono agora minha escuridão.

Escute minha voz a lhe gritar :
- Venha ! Venha comigo !
Somos diferentes corpos
ocupando um único espaço,
seremos sempre eu e você !

Escuto sua voz a me pedir :
- Fique ! Fique comigo !
Somos um único corpo
ocupando diferentes espaços,
só sobreviverei se for eu e você !

E então me desprendo do seu corpo
e mergulho para a luz,
morrendo e renascendo
apenas para aquilo que é real,
abandono agora minha escuridão.


San, 13/12/1978

domingo, 11 de outubro de 2009

Só para lavar a alma



Riacho, chuva, cachoeira,
tanta água tem conselho
para lavar a alma.

Cantochão, cantata, mantras,
palavras de sonho,
para lavar a alma.

Morte, morteiro, miséria,
tanto acabar,
só para renascer,
só para lavar a alma.



San, 01/02/1980

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Aprendendo com o homem que conhecia uma só letra


No B do Barco aprendi,
com o homem que conhecia uma só letra,
que o B é sempre um B...

Botão-de-flor, Bola, Bate-papo,

Balão, Brincadeira, Beira-rio.

E fui ficando assim,

inadvertidamente,
infantil, tola, feliz.

E ao final de nossa viagem,
ao final da lição,
abandonei todas as outras letras.

As palavras sempre me dividiram !

Aprendi a sentir,
a educar meus sentidos,
e não ser somente um depósito de frases,
graduações, bibliografia, teses, metas.

Antes meus sentidos eram B de bobagem,
aprendi então o B de Beleza, Bondade,
larguei a bengala da erudição,
alcancei a Bem-aventurança,
a vida de Bel-prazer.


San, 20/04/95

Gênesis




No começo era o verbo,
mas como o verbo sozinho era incompleto,
o homem criou o sujeito, substantivo,
adjetivos, pronomes, advérbios.

Eu, tu, ele,
nós, vós, eles.

Repetia as pessoas,
decorava os verbos.

Ser foi o primeiro que conheceu,
Ter o segundo,
Estar o terceiro,
Permanecer o quarto.

Outros verbos
a professora não ensinou,
verbos imperfeitos,
pragmáticos.

Como homem
varreu o ginásio,
conjugava na primeira pessoa do singular,
desdenhava na terceira do plural.

Aprendeu que os verbos
eram bastante flexíveis,
já não havia mais
o canto do castigo.


San, 13/05/1982

PORFIA



Aquilo-que-Sou e Aquilo-que-Fui
se encontram
todos os dias de tarde
para beber, contar piadas,
relembrar algo,
juntas lerem poesias.

E ali eu posso apenas 

ficar observando
essas duas figuras,
estranhas conhecidas,
odiosas,
enigmáticas criaturas.

E com um sensação
tão clara de abandono,
me parece que Todavida se foi agora.

Pelo jeito Todavida resolveu viajar,
a algum lugar tão fantástico e especial
que eu não me adaptaria.

Aquilo-que-sou
hoje esta terrivelmente evasiva,
se cantando invencível,
rindo e debochando
de qualquer pedra do caminho.

Aquilo-que-fui
sempre introspectiva,
alerta, clama cuidado,
“ todo mundo tropeça,
mesmo um gigante cai!”

E daí eu sinto sono,
muito tarde fui dormir,
e neste relento me deito,
para nunca mais existir.



San, 13/05/05

domingo, 20 de setembro de 2009

Caverna



Na tranquilidade aparente
do fundo do mar
eu estou.

Ondas e ondas do mundo
passam a todo minuto
sobre minha cabeça,
elas não mais me importam,
apaixonam, afetam
ou motivam.

No meu mundo particular estou,
silencioso, escuro,
cheio de pequenos seres estranhos.

Assim sou eu,
essa pessoa da profundidade,
essa pessoa
de um mundo que não é fácil,
não é popular,
que não é imediatamente agradável.

Para onde vão todos aqueles
que se cansaram
de serem levados
pela constância da maré.



San, 09/04/05

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

ESPERANÇA


Sentada nessa calçada,
olhando meus próprios pés desajeitados,
me pergunto se algum dia vivi
movida por algo além da esperança.

Será que aproveitei a vida
ou ela se aproveitou de mim ?

E assim olhando a vida
absurdamente bela,
absurdamente breve,
eu vejo que todos os absurdos
fazem parte da condição de estar vivo
das formigas as montanhas.

Meus pés ainda dormentes
trazem Socrates
de algum lugar tão distante,
de coisas tão obscuras
que julgamos nunca possuir.

E assim vou olhando a rua
sem ve-la realmente,
olhando a vida
sem vive-la realmente.

Sera que aproveitei a vida
ou ela se aproveitou de mim?

Mas algo pula
de dentro do meu abdomen,
das mãos, pernas,
e me levanto
como um boneco de mola,
impulsionada talvez pela rotina,
ou vergonha,
ou pela exigência da solidão.

E vou indo,
onde realmente não sei
e até o final duvido que saberei.

No entanto estou a caminho,
sim percebo,
sou movida por algo
além da esperança.


San, 25/01/04

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Desejos amarelos frutos verdes



Criança espera!

Não pegue o fruto que esta verde,
deixe amadurecer na arvore,
que na arvore fica mais doce,
fica mais gostoso.

Ah! Minha avó!

Bondosa e sofrida pessoa,
ali cutucando meu entendimento.

Ah! Minha avó!

Mulher do mato,
mãos rachadas do trabalho pesado da enxada,
mãos inchadas de limpar o chão de casa alheia,
mãos queimadas pelos fornos quentes
e tanto tachos de doce para vender.

Mulher de rosto vincado,
de dura lida,
de muitas histórias,
de idas e vindas.

Ah! Minha avó!

Cantando hinos
para acalmar o coração aflito,
batendo roupa no tanque
para escoar a raiva de ser esquecida.

Então peguei o fruto verde
e me amargou a boca.

Para mim,
naquele época,
era ela a mulher invisível,
risível, sem glamour,
tão simples, tão comum, tão boba.

Desejos amarelos eu tinha,
tudo na hora,
tudo do meu jeito,
achava que sabia tudo,
que sabia demais,
que sabia de coisas
que ela não poderia.

Colhi os frutos verdes,
amores verdes,
caminho verde,
verdes atitudes,
sempre pegando no céu da boca,
amargando.

Ah! Minha avó!

Preciso agora do seu cheiro,
do barulho que fazia mancando ao caminhar,
preciso do som da sua voz,
dos seus resmungos.

Preciso das suas palavras!

Agora sei avó
da dimensão de todas elas,
e de como sou apenas um ponto,
uma formiguinha,
em meio a esse enorme carrossel
que chamam vida.


San, 16/09/09

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Dicionário Emocional : C de Certeza



Certeza é uma palavra estranha,
"com certeza" pode ser tanta coisa :

Com certeza não sei nada!

Com certeza estou na duvida!

Com certeza me perdi!

Com certeza não é por esse caminho!

E assim "com certeza"
pode significar que estamos certos
da nossa desorientação,
que é melhor ficar calado,
qualquer coisa a mais
"com certeza" pode ser
um grande engano.


San, 13/12/04