sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Maledetta miseria


 

Mente pobre
vida pobre
mesmo cheia
de coisas


A miséria sempre alcança
quem se cansa de evoluir


E se estamos marcados
melhor não olhar de lado
tudo é perigo
todos são potenciais inimigos


O amor que é tão bonito
nessa mente diminuta
é apenas uma palavra
que vive sempre em disputa


Se essa mente de fel
segue um coração covarde
então mais miserável
já se torna a criatura




San, 08.11.2024

Cest la fin


 

Quando um relógio para
ele não sabe que parou
ele continua ali
mesmo sem função



O ego acredita 
que vai sobreviver 
a morte do corpo
que de alguma maneira
vai levar algo de si
ou das suas experiencias



Seja para um mundo imaginário
como céu, valhalla, svarga loka,
jannah, takamanohara, iwaga,
morada dos ancestrais,
o outro lado do rio,
sansara.



Seja para um novo corpo
que carregará algumas informações
emocionais e experienciais
da viva que se encerrou.



Todos querem ir para o céu
mas ninguém quer morrer
talvez porque intuitivamente
nós percebemos 
aquele tic tac de fundo.



San, 08.11.2024

sábado, 2 de novembro de 2024

Gaiteira




 Já amei 
tão intensivamente
que desenvolvi gases, 
escoliose, cólon irritável,
gastrite, enurese noturna
enjoo, tontura, nevralgia



Vivi a ansiedade 
de não saber 
se era ou não amada
e a tristeza
de não ter sido 
considerada



Senti palpitação
angustia
alegria
subi as nuvens
desci aos abismos
me perdi
e me achei
algumas vezes



Todas as bobagens
que julgamos preciosas
mas são realmente 
doentias



Já padeci 
dessa enfermidade
esses picos hormonais
que são chamados amor
hoje sou grata
a maturidade
que me trouxe
de volta
a realidade





San, 01.11.2024

È tuttu assai sèmplici



O que chamam maldição
é apenas uma forma
de interpretar
uma impossibilidade


Da mesma forma que magia
é outra forma de dizer
que queremos tanto algo
que ignoramos a realidade


Meu livro de orientação
não é sacro
se baseia
na natureza 
da vida


Nascemos
nos debatemos
com dificuldades
sonhos e desejos
colhemos glórias
e fracassos
levantamos
caímos
vezes sem conta
realizamos
optamos
desistimos
persistimos
apoiamos
amamos
odiamos
refutamos
aceitamos
aprendemos
esquecemos


É tudo muito simples
estamos aqui agora
depois vamos embora



San, 01.11.2024

Delirantes




Uma pessoa 
me perguntou 
quando deixei 
de gostar de deus



Lamento lhe informar
mas nunca fomos próximos
nunca conversamos
nunca namoramos
nunca me fez falta



Outra me perguntou
se tenho magoa 
da divindade



Bem seria meio estranho
 nutrir magoa, raiva, expectativa 
ou qualquer outro sentimento
por alguém que não existe



Esse foi um mito criado
numa época distante 
de muitas dificuldades
medos, tabus, desconhecimento
por um povo ferido e perdido



Então não tenho problemas 
apenas não tomo para mim
essas fantasias
mesmo que muitos 
a apreciem



Não existo num corpo único 
atado ou compartilhado
não respiro, como e penso
pela mente dessa gente
em delirio





San, 02.11.2024





 

Apagamento

 


Eu não suporto 
mentiras funcionais
elas só servem 
para tranquilizar os outros
exatamente aqueles
que não carregam a dor


Elas só servem 
para dar um falso conforto
para as pessoas 
que não estão realmente
interessadas em você
mesmo na sua cura


Tenho que lhe ser sincera
existem coisas 
que não podem ser curadas
por isso existe a morte
o apagamento 
de todas as coisas


Para as coisas tão doloridas
para essas coisas
precisamos desaparecer
para vencer o caos interno



San, 01.11.2024

Para minha filha morta 2



Tem ausências
que trazem alivio

Tem ausências
que deixam duvidas

Tem ausências
que causam desconfiança

Tem ausências
que causam alegria

Tem ausências
que espantam, calam
tiram dos trilhos


Tem ausências
que quebram, magoam
confundem, exaurem


E ai tem a sua ausência
que não foi presença
foi promessa


Tem ausências
que nos esvaziam
de amor e fé




San  02.11.2024

Para minha filha morta

 


Nos breves cochilos
eu escuto sua voz ao fundo

nos breves cochilos
eu sinto seu cheiro

nos breves cochilos
eu sinto seu leve toque


Toda minha vida tem sido
tomar folego, resistir
persistir, confiar
entre os breves cochilos




San, 02.11.2024

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Partenogênese

 


E de repente toda a malignidade se dissipa
e uma grande paz advém e se acomoda
onde antes havia somente turbulência


Achava eu que estava contaminada
por toda raiva que fui colhendo pelo mundo
mas percebo agora que era apenas uma ausência


A menina dos sonhos acordada
a adolescente compadecida que escutava
a mulher que acolhia as diferenças


Onde estiveram nesses tempos soturnos e estranhos
talvez protegidas ou apenas dormitando
ou dentro de um ovo que agora se parte e vem a vida


E no silêncio eu me despeço dos meus monstros
esses que me serviram um tempo de guarida
e agora finalmente seguem outros rumos



Enfim
estou
parida



San, 30.10.2024


segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Oktubri

 


Outubro que mês horrendo
em cada ponto um desgosto
carregando tanto encosto
que me vergo na bigorna


A insonia batendo ponto
quando não os pesadelos
me atropelam e desgastam
acordo rabugenta e dolorida
que vida a toa e fudida


Já vivi muitos outubros
e novembros, dezembros 
tudo contando dinheiro
sobrando gastos e contas
faltando amizade
sobrando amarguras 
e lembranças


Melhor a morte me diria
ela vira tenho certeza um dia
e ai finalmente de braços dados
chutando esse corpo
sera novamente
apenas janeiro




San, 01.10.2024