domingo, 1 de novembro de 2015

Borderline 3


Como posso construir uma parede
se meu self é evanescente,
e a cada minuto estou em todo lugar,
em formas diferentes,
por estranhos motivos? 

Para mim um pingo 
não é exatamente um pingo,
um pingo pode ser muita coisa.

A prova de uma onda que passou por aqui,
mesmo que o mar esteja tão longe,
um sinal deixado por alguém,
um aviso impreciso,
a caneta que acabou a tinta,
a palavra indefinida.

Como posso ter uma vida didática
se minha mente é errática,
confusa, delirante, desconcertante?




San, 01/11/2015

Novela



Eu gostaria que a vida 
fosse simétrica
e não desconexa,
bela, valorosa, direcionada
e não feia, confusa e caótica.

Tanta coisa eu gostaria
que fosse a minha vida,
tudo idealizado
em tardes outonais,
tranquilas e plenas.

Um belo desenho rasgado, 
amassado, molhado, borrado,
guardado na gaveta da comoda
enquanto enfrento a vida fogo
e corro, me desespero,
quase morro.

Eu gostaria que a vida
fosse uma novela
onde pudesse reescrever
os personagens,
mudar a trama,
nivelar o drama,
saber o que esperar
do inesperado.



San, 01/11/2015

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Cartas para minha mãe


Você deveria ter me protegido!

Você deveria ter me ajudado!

Você deveria ter me desejado!

Você deveria ter ao menos me suportado!

Eu lhe odeio 
por não poder ser
o eu queria.

E lhe odeio muito mais
por se exatamente 
o que eu precisava.

Pare a musica!

Cesse o choro!

Guarde o dedo!

Interrompa a palavra!

Por muito tempo quis acreditar
que poderia ter sido 
muito melhor
para mim

Nunca pensei 
no seu tormento,
na sua auto ausência,
na vida dormente
incolor
descrente
insipida
que você vivia
e nas coisas
que você sentia

Eu deveria ter lhe protegido!

Eu deveria ter lhe ajudado!

Eu deveria ter lhe desejado!

Eu deveria ter ao menos lhe suportado!

Eu lhe perdoo 
por não poder ser
o que eu queria.

Eu lhe admiro por aceitar
ser exatamente 
o que eu precisava.



San, 23/10/2015

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Sei que você não pode compreender isso também


Eu odeio sentir saudades,
fazer planos futuros,
relembrar bons momentos,
desejar sua presença,
lamentar sua ausência.

Eu odeio ter sentimentos especiais por alguém,
mesmo que esse alguém seja você.

Eu odeio me sentir excluída,
esquecida, abandonada, enganada,
mas igualmente odeio me sentir especial,
essencial, desejada, lembrada, amada.

Odeio ter uma história intensa,
envolvente, rica, importante
com alguém.

Sei que isso é bem confuso
não somente para você
ou outra pessoa de fora
mas inclusive para mim.

Mas eu convivo a milênios 
com esse sentimento
e aprendi a aceitar
a onipresença da ojeriza
em necessitar de alguém.

É tão complicado estar humana!



San, 22/10/2015

Every day


Mesmo desalinhada, 
em pânico,
despreparada,
atolada numa vida pântano,
SE AME!

Tão difícil é conseguir amor sincero
da família, amigos, companheiro,
complicado esse jogo envolvente
de amor-tira-concede,
então
SE AME!

Na pior hora, 
no momento mais inconveniente,
inacabada, não perfeita,
totalmente irrealizada,
SE AME!

Entre sete bilhões
seja um 
que faça realmente
a diferença,
SE AME!

E quando se permitir
esse direito,
quando realizar esse feito,
aquelas peças estranhas
do quebra cabeça
todas se encaixarão,
e a vida não sera nada além senão
um doce abraço
acontecendo a cada dia.




San, 22/10/2015

Shut up



Sinceramente
em certos momentos
a melhor coisa a fazer
é ficar de boca calada.

Não tente consolar,
não tente explicar,
não tente doutrinar,
não tente entender,
apenas fique
de boca calada.

Sei que o ego 
complica tudo,
a moralidade da carochinha,
os conceitos sem conserto,
a dó fantasiada de ajuda,
o complexo de sabe-tudo,
o psicólogo enrustido,
e quando as palavras saem 
cuspidas por essas deturpações
nada resolve,
tudo é revolver.

Apenas esteja presente,
sem análises,
sem promessas,
sem frases feitas,
sem lugares comuns,
faça um grande favor
fique de boca calada.




San, 22/10/2015

Sem proteção


Odeio escadas,
mesmo aquelas pequenas de casa,
aquelas que usamos para trocar a lâmpada
ou pegar algo na parte de cima do armário,
mesmo essas eu não gosto.

No quarto degrau já sinto tonturas,
minha mente é invadida por imagens dolorosas, 
bacia quebrada, pescoço torcido, pinos na perna,
olho furado, cabeça rachada, dentes arrancados.

Odeio escadas!

Imagine então as escadas imensas,
inclinadas, escarpadas, escorregadias, 
irregulares, esburacadas, tortas, precárias,
que encontramos invariavelmente
 nos templos antigos.

Essas acredito que já foram feitas assim,
perigosas, difíceis, assustadoras, cansativas,
para testar os neófitos e interessados 
e afastar os mundanos e preguiçosos.

Pois pensava aqui comigo agora
que existem vidas escadas,
vidas que por mais que você tente
elas serão sempre complicadas,
um teste de paciência,
um exercício de perseverança,
um treinamento em resiliência,
um pé na bunda bem dado
para você chegar mais longe.

Odeio ainda mais escadas!



San, 22/10/2015

Relevante


Meu ponto G esta na centésima página
de um livro de 400 folhas,
quando de repente
tudo começa realmente
a fazer sentido,
e eu consigo me antecipar
ao que esta acontecendo,
então todas as outras sensações,
ou desejos,
 ou necessidades,
ou pensamentos,
desaparecem
e eu estou ali,
completamente ali,
satisfeita e direcionada,
mesmo ainda dentro 
do desfigurado 
mundo real.

Essa sensação
dura muitos mais 
do que meus orgasmos
que costumeiramente
são breves e indelicados
como um espirro.

Sim, eu catalogo os prazeres
pelo nível de duração e intensidade.

Entre os primeiros esta algo como
uma pizza de mussarela quentinha,
de bordas grossas,
com bastante tomate fatiado por cima
e pedacinhos de alho,
num dia de muita privação.

Lá pelo final esta o beijo na boca,
principalmente se fui pega de surpresa,
abraços também não são agradáveis para mim,
assim como alguém me oferecer colo,
ou aquela mania de se cumprimentar
com beijinhos no rosto.

Também próximo ao topo
é estar simplesmente sentada
ao lado de alguém que gosto,
assistindo um filme
que quero muito,
ambos em silêncio,
apenas trocando sorrisos
nos momentos mais emocionantes.

Compartilhar poesias,
trocar livros,
ganhar sabonete líquido,
olhar um quadro
e dividir as sensações,
deitar juntos na rede,
meditar lado a lado,
andar com os cachorros
num parque,
tudo isso é extremamente 
prazeroso
para mim,
assim como poder dar algo,
algum presente,
alguma ajuda,
uma palavra boa,
a alguém que precisa muito,
isso está no TOP 10.

Meu ponto G 
não é algo imaginário,
imponderável,
duvidoso,
é factual,
concreto,
relevante.




San, 22/10/2015

Sei que você não pode compreender isso


O ar passa por mim
sem que eu o sinta
sou parte dele
assim como parte
da paisagem

me desestruturo 
a cada contato
uma flor, um pássaro,
o sol, uma árvore,
uma pessoa caminhando

mudo de forma
tenho outro sentir
me fatio
expando
retraio
levanto
caio

dali a pouco me grudo
em algo conhecido
e volto a minha forma
por alguns minutos ou horas
antes da próxima
metamorfose




San, 22/10/2015

Eu não


Do lado de fora há tanto silêncio
toda a natureza em suspense
nem o assovio do vento
nem ao menos um latido
tudo placidamente contido

Do lado de dentro bolhas estouram
suspiros, soluços, choros, lamentos
toda forma de acorde se forma
e se entrechoca em ríspidos ruídos

A palavra não dita mas sentida
o sentido não acatado e delimitado
mas que em algumas momentos vaza
pela porosidade da tensão constante

Então preciso quebrar todas as coisas
que podem ser quebradas 
para combinar comigo

Então preciso calar todas as coisas
que se aquietam a custa da dor
que eu mesma sinto

Essa é a paz que eles construíram
a verdade engolida
o sorriso pronto
o medo de ser não querido

Tudo está bem papai?

Tudo esta bem mamãe!

Eu não estou mais aqui
eu não estou mais
eu não estou
eu não 
eu 





San, 22/10/2015