terça-feira, 20 de outubro de 2015

Moby Dick


Tenho navegado a anos em tantas letras
procurando a palavra perfeita

As vezes a vejo ao longe numa imagem
ou na composição de alguma melodia

Mas se tento agarra-la meu barco balança
então desisto para não ir a pique

Talvez seja apenas uma miragem
ou um conto de pescador antigo

Talvez não exista essa palavra
que possa me afastar de todos abismos




San, 20/10/2015

Barbie Verão


As escolhas
deixa sair aos jorros
deixa sair aos poucos
deixa sair no tempo
deixar sair o tanto
que se precisa hoje

Como uma imolação
que se faz ajoelhada
em que se entrega tudo
e que não fica nada

No tempo
deixa verter as dores
deixa verter o espanto
deixa verter as duvidas
deixa verte o medo
dos homens
do sexo
da marca
que fica
no corpo
na mente
em toda família
que brilha no escuro
que acusa na esquina
que aponta o dedo
o mesmo dedo que usa
na prece contrita



San, 20/10/2015

Vacancy


Preciso comprar um novo colchão
para acomodar meu bicho papão
porque não consigo dormir apertada
com tanta coisa mal assombrada

Mas não tenho tanto do que reclamar
estou até feliz com esse novo lugar
os fantasmas são velhos e tem reumatismo
estão sempre dormindo ou vão para o bingo

Tem dias em que até me sinto sozinha
e muito reclamo dessa minha sina
procuro encrenca para me coçar
mas desisto logo e vou descansar

Porque na verdade essa mansa vida
é tudo aquilo que eu não queria
mas em algum momento foi eu que escolhi
não ter mais problemas e viver feliz




San, 21/10/2015

Cocktail


Eu alimento o lobo que me devora
eu crio a ansiedade que me assusta
eu invisto no medo que me paralisa
eu mantenho a ganancia que me limita
e a ignorância que me desequilibra

Eu sou o estranho dentro do armário
eu sou o monstro embaixo da cama
eu sou a cabeça flutuante
que me assombra no escuro
e a grande mão que aperta a garganta
até o ar não passar

Por onde vou 
deixo pegadas ensanguentadas
onde toco deixo minha feia marca
e então de repente explodo em luz
que cura, conforta, acalenta
e sou agora a nascente
a chuva esperada
a própria semente

O nada, o tudo, o certo, o errado, 
crescendo para todos os lados,
o perto, o longe, o temido, o esperado,
tudo ao mesmo tempo
sempre junto 
e misturado.



San, 20/10/2015

Smut


O que restou
do meu coração afogado
não dói mais,
as marcas são as margens,
pois as memórias
vivem muito mais.

Meus sonhos são agora
pequenos suspiros
levados facilmente pelo vento,
 não ha mais forças para lutar.

Minha essência mora
em algum lugar
enquanto minha mente
é refém dos maus hábitos
sem entender
o que eu realmente sou.

E eu continuo aqui
replicando essa história
de mim para o mundo
da ignorância para a lucidez,
do medo para a libertação,
de mim para mim.



San, 20/10/2015

sábado, 17 de outubro de 2015

Eu não assisto filmes de terror


Eu não assisto filmes de terror.

A vida real já tem terror suficiente,
 eu não preciso acrescentar mais nada.

Aqueles que assistem 
com certeza devem viver 
dentro de uma bolha de normalidade, 
alienados da história do mundo 
e do que se passa na atualidade.

Ou então já estão com a mente 
tão afetada pela gosma 
da violência e carnificina 
que precisam de um dose extra 
para se sentirem 
"dentro dos padrões".

Hoje li a notícia que agora na Índia 
meninas de 2 a 5 anos 
são vitimas de estupros coletivos.

Se isso não for terror suficiente 
eu nem sei mais o que é preciso 
para se sentir enauseado, 
assustado, raivoso, desesperado.

Estamos em 2015 
e crianças são vendidas  
para casas de prostituição, 
rede de pedofilia, 
como escravos domésticos,  
para mendicância 
e outras porcarias nojentas 
que a mente humana 
consegue inventar.

Os seres humanos fazem guerras 
para vender armas 
e dar vazão as suas taras 
e desejos assassinos.

Os seres humanos 
classificam outros humanos 
para dizer quem merece e pode viver 
e quem deve morrer.

Os seres humanos inventam religiões 
que contém ideias perniciosas
e seus deuses são igualmente maus,
sedentos por sangue.

Os seres humanos 
criam produtos 
que os fazem sentir vazios,
perdidos, desorientados,
isolados e afastados
da intimidade real.

Os seres humanos 
matam até "por amor", 
conceito horripilante.

A cada dia a mente humana 
se torna mais sombria, 
descontrolada e maligna.

Nenhum filme de terror 
consegue chegar perto 
do absurdo da realidade.



San, 17/10/2015

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Unbroken


E depois que você colar os pedacinhos
verá que nunca existiu essa pessoa errada
que ela foi realmente criada e alimentada
pelas dores impossíveis que passou.

Não quero dizer que o mundo é perfeito
mas não, você não tem nenhum defeito,
não acredite naqueles que lhe limitam
porque foram eles que inventaram a limitação.

Um dia surgirá em que todos nós seremos ok
cada um na sua forma, na sua vida, do seu jeito,
com sua admirável intranquilidade,
nada será estranho, nada estará fora do lugar,
nada mais será feito para mudar nossas diferenças.




San, 06/10/2015

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Broken


Caiu,
quebrou.

E agora? Gente se joga fora?

Com a vassoura velha
das experiências tortas
vou varrendo a vida rota
para o grande abismo 
dos dias esquecidos.

Coração não se cola!

Tantas quedas
tanto ainda
a se partir.

Por que tudo
tem que ser 
tão confuso?



San, 05/10/2015

sábado, 3 de outubro de 2015

Do descalabro do mundo


Poderia ser melhor,
poderia ser pior,
poderia ser tão fácil,
poderia ser titânico,
poderia ser nas brumas,
poderia ser as claras,
poderia ser bem firme,
poderia ser mais frágil,
poderia ser cheiroso,
poderia ser fedido,
poderia ser gostoso,
poderia ser nojento,
poderia ser cortante,
poderia ser suave,
poderia ser didático,
poderia ser caótico,
poderia ser batalha,
poderia ser amor.


Se tanto pode 
se tanto não fica 
se tanto quero
se tanto não encontro 
se tanto procuro 
se tanto não acho
se tanto não entendo 
se tanto recebo
se tanto não faço
sobra o que nessa vida destempero?



San, 03/10/2015

Na beira do rio


Conforme experimentamos tantas coisas
a alma vai ficando encardida, 
não tem como manter a mesma rotina
e querer a mente limpa.

Tem que bater bem,
tem que esfregar os cantinhos,
vai machucar a mão 
mas o coração se alivia.

Conforme vão passando tantos anos
as dores se entranham na vida
não tem como encontrar a felicidade
carregando tanta coisa dolorida.

Tem que lavar bem
com paciência e persistência,
vai tomar bastante tempo
mas o coração se alivia.



San, 03/10/2015