sábado, 12 de março de 2011

D O R


Por favor me deixe falar da dor!

Não porque a queira agora,
seja apegada ou viciada nesse estado,
mas porque é preciso lhe dar voz,
é preciso que ela se exponha, seja ouvida,
para finalmente seguir seu caminho.

Calar-me agora não a fará se calar também,
e se você virar seu rosto e mudar de assunto,
fazer sermões, propostas, contar historinhas,
ela esperara até que esteja pronto
para se confrontar com aquilo que exige resposta.

Não a trago como uma afronta a você,
e nem quero lhe infundir medo,
a mortalidade faz parte 
da condição humana.

Eu preciso me conhecer por todos os ângulos,
descobrir a pessoa inacabada,
o que se esconde em pontos cegos,
eu preciso do espelho de muitos olhos,
eu preciso de um minuto de paciência,
do apoio de um braço forte,
eu preciso encarar aquilo que me toma,
eu preciso retomar aquilo que me foge.



San, 12/03/11

sábado, 19 de fevereiro de 2011

ARESTAS



Assim que você nasceu
uma aresta foi sutilmente quebrada,
você se tornou o filho de alguém.

Num papel tudo é registrado
para que nunca possa se esquecer,
local de nascimento, ano,
dia, hora, cor da pele, sexo,
nome de duas gerações
que lhe trouxeram ao mundo.


Depois hábitos, palavras, normas
internet, cinema, os amigos, a tv,
revistas, o mundo lá de fora,
foram lixando suas arestas.

Quando menos esperava
você se tornou aquele que veio fazer algo,
médico, juiz, diretor, dentista, advogado,
dar orgulho aos pais, avós, padrinhos,
ser o campeão admirado ou temido.


Mais e mais arestas foram sendo polidas,
um movimento chamado "educação para o mundo",
e assim você é exortado a chegar a algo,
ser algo, ter algo, esperar algo, acreditar em algo, 
renegar algo, temer ou amar algo.


E então você que era
o senhor das mil pontas luminosas,
agora é um perfeito circulo,
se encaixando em tudo, sem diferenças,
sem nada do que trouxe de si mesmo.


San, 18/02/11

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Balada da vida perdida


A nossa infância morta
ainda pode brincar
no patio vazio
das nossas insensíveis portas.

Não tenho nada não !

Não posso nada lhe dar !

Nada, nada, nada !

Eco das nossas maldades diárias.


San, 01/12/81

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

De olhos bem fechados



Por certo que ficaria mudo
e um grande silêncio
com ondas ao fundo.

E teria também
um misto de dança
e balançar suave
como fazem as crianças
chupando o próprio dedo.

E naquele momento
se abriria os espaços vazios
necessários quando estamos cheios
daquilo que não seremos
e não queremos entender.

E de olhos bem fechados voaria,
como a sombra do ônibus 
passando na estrada,
sendo levado até o lugar distante
onde ainda existe inteiro.




San, 25/01/2011

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Intruso



Por toda casa
vão ficando fragmentos de nós dois,
criaturas antes integras e coesas,
agora tão distantes e indefesas,
despedaçamos como tolas ilusões.

Nossas mãos jã não se tocam no escuro,
os olhos são arredios e sem carinho,
e onde antes havia beijo, musica e palavras,
a boca cala.

Não existe mais cobrança,
raiva, tristeza, espaço,
tantas coisas que não foram ditas
nunca mais serão,
não existe a necessidade de solução.

E virando as paginas desse livro nossa vida,
onde fotos antigas se parecem de outros seres,
o estranhamento me segue como um sopro,
nada de você desperta saudades e desejo,
nada de mim mesma eu reconheço.



San, 14/01/2011

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Horizonte perdido



Tantos caminhos a seguir
com suas dores-dificuldades,
suas recompensas-responsabilidades,
seus sabores-imagens.

Tanta coisa para conhecer,
praticar-entender-assimilar,
duvidar-questionar-expandir,
negar-evitar-destruir.

E o coração
aquece-aninha-sufoca,
larga-enregela-trisca,
expande-recompõe-abriga.

Descompensado,
descompassado,
bate, bate, bate, bate,
se pergunta o motivo de bater.

Então a luz,
a clareza de sentir,
um minuto sem guerra,
sem pendência-busca,
colocando pé a pé a frente,
balançando ao sabor do vento.

Todos caminhos vão machucar
olhos abertos-descalça,
sem ilusões-fé-mentiras,
passo a passo-construção,
passo a passo dor-descoberta-alivio-equilíbrio.


San, 12/01/2011

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Consequências


Escuto o sopro fantasmagórico
que de vez em quando ronda 
minha inconsciência,
vozes de pessoas indiferentes
como possíveis mortos desconhecidos,
restos de conversas, pedidos, um parabéns
conselhos de 1942, as vezes um aplauso,
um meloso soluço de choro contido.

Depois tudo se mistura
ao som caótico do transito,
da cidade, dos ambulantes,
dos travestis, dos pensamentos,
ligo o radio para chegar 
ao absoluto do acumulo,
o buraco negro,
e ele talvez engula todas as coisas,
a luz, a treva, o pressentimento,
talvez levante o carro
e o jogue em outra zona de conflito.

E o frio que antes era seu estomago
subiu mais a esquerda,
até o coração,
como uma larva gosmenta,
ou a voz falsamente bondosa
do médico verdadeiramente distante
enquanto enfiava a grande agulha.

BIOPSIA...
esse nome sempre me pareceu de uma flor

de uma planta trepadeira,
cheia de pequenos botões brancos e perfumados
que vão subindo pelas paredes e alambrados de madeira
até apodrece-los e tudo ir ao chão.

Por que você me abandonou antes do primeiro olhar?

Antes do primeiro bocejo, antes de qualquer espirro,
cutucada no nariz, coçada de saco, cusparada,

suor nas mãos, boca fedida, grito sem sentido,
antes de ser alguém ou algo
que se pode desrespeitar ou desprezar ?

É isso que você faz com todas as coisas ?

As deixa como um telefone fora do gancho ?

Esperando na esquina enquanto você vai comprar jornal ?

E as vozes distantes se calam,
absurdamente tristes pela minha vida,
como mortos pranteando vivos,
o silêncio corta ao meio a avenida,
ultrapassa o sinal,
atropela um ciclista,
levanta minha mão
para alcançar alguma coisa,
talvez segurar a ponta dos seus dedos
antes da partida.



San, 17/02/2010

Jogos de amar


Pela fresta da janela
garimpo seu olhar selvagem
no meu corpo sedento
medo e desejo se espalham.

Não quero acreditar em dogmas,
não aceito sua lógica,
não quero mais ter nexo
e nenhum complexo.

O tempo é um jogo,
o tempo é um logro,
o tempo é apenas
um relógio na parede.

Pela fresta da janela
recebo seu olhar covarde
no meu corpo mudo
tristeza e dor se espalham.

Não quero acreditar em dogmas,
não aceito sua lógica,
nunca tive nexo,
chega de complexo.

O tempo é um jogo,
o tempo é um logro,
o tempo é apenas
seu retrato na parede.

O tempo é um jogo
o tempo é um logro,
o tempo é apenas
mil retratos na parede.


San, 01/03/2001

SPRUCE


Quando o silêncio se deita sobre mim
sinto seu cheiro terra-almiscarado-sujo-forte,
e novamente canto como antes de tudo se quebrar.

Nada me parece estranho e fora de lugar
você ainda existe e eu também para você
e tanta coisa ainda falta acontecer.

Amar não deve ser uma consequência desse existir,
amar pode ser uma doce batalha perdida
e mais do que sua presença-beijos-corpos-lágrimas
é sua ausência agora que me dá vida.

Não quero mais tirar os relógios de lugar,
e nem cobrir meu corpo com a lassidão,
eu sou mais do que o tempo pode dar.

E me deixo fluir para este lugar
sereno-terno-refrescante-verde
onde nosso amor cresce com o Spruce.



San, 03/01/2011

Costura



Remendo é coisa séria
e tão bom de fazer
além de ocupar a mente
fortalece o dedão.

Já que eu estou aqui
vou bordar um ponto em cruz,
apertadinho e belo
como sempre se convêm.

Costurando minha vida
nas oportunidades do mundo
vou fazendo nova roupa
diferente de tudo que é tudo.

E pareço ainda ouvir
os cantos singelos da avó
de fé, esperança, peleja
da vida que foi a fundo.

Vou plissando as coisas
com forte e precisa mão
criando algo tão velho
como meu velho coração.




San, 03/01/2011